domingo, 28 de fevereiro de 2010

Big Bang




Um dia desses me deparei com uma edição da revista Isto É e resolvi dar uma lida. A matéria da capa, sobre os mistérios da ciência, na verdade era meio estranha porque me pareceu que os itens citados eram uma mistura de coisas que realmente a ciência não tem uma resposta decisiva e coisas que apesar de a ciência já ter respondi e ter até uma boa dose de evidências para apoiar as respostas, as pessoas não ficam satisfeitas com as respostas dadas. O principal item desse último tipo foi o sobre o Big Bang, que inspirou esse post.

A teoria do Big Bang foi aceita pela comunidade científica no início do século XX, mas, curiosamente, ela foi proposta inicialmente por um astrônomo e físico que também era um padre, chamado Lemaitre. Na época, o padre chamou o tal modelo de “átomo primordial”. A comunidade científica não recebeu muito bem sua hipótese e apelidou seu modelo de Big Bang, de maneira irônica. Lemaitre afirmava basicamente o que a teoria afirma atualmente, porém, ainda não se tinha evidências numerosas sobre o evento.
Com os rigores atuais, o Big Bang é descrito como um momento de singularidade, ou seja, toda a matéria do universo estava espremida em um único ponto do espaço. A pressão ali era monstruosa e a temperatura era inimaginável para quaisquer padrões atuais. Em algum momento essas condições se tornaram tão extremas que o pontinho entrou em colapso. Nesse momento, toda a matéria se espalhou e o próprio espaço foi criado juntamente com o tempo. Aos poucos as partículas resultantes foram se agrupando em prótons, nêutrons, e mais tarde em átomos, conforme o universo esfriava. E assim foi, até que surgiram estrelas e depois os planetas. Isso ocorreu há mais ou menos 13 bilhões de anos atrás. (Quer saber o que as estrelas tem a ver com a existência da vida na Terra?, clique aqui)

A matéria na Isto É dizia que não existem provas de que o Big Bang realmente aconteceu. Bom, na época em que a teoria foi proposta por Lemaitre realmente não existiam provas, mas hoje existem inúmeras: expansão cósmica e radiação cósmica de fundo são as mais populares. Então, o que exatamente a revista quis dizer ao dar a entender que não existem provas e que a ciência ainda não conseguiu responder exatamente como o universo surgiu? Acho que o que faltou ser esclarecido é que o que a ciência não pode comprovar ainda é se existia algo antes do Big Bang, se existiram outros Big Bangs ou mesmo os detalhes sobre as leis físicas que região aquele momento. Sim, não existem evidências que fundamentem essas respostas. Mas isso não quer dizer que não existam provas para o Big Bang em si. A própria singularidade, que descrevi no início, é um mistério ainda. Ela se trata de um momento em que a Relatividade Geral e a Mecânica Quântica estavam interagindo ao mesmo tempo naquelas condições. O problema é que essas teorias são incompatíveis uma com a outra. A Relatividade se dedica ao estudo do mundo macroscópico, e a mecânica quântica, ao estudo da escala subatômica. Para o modelo do Big Bang ser completamente explicado em suas minúcias, precisamos de uma teoria que unifique esses dois aspectos: o macro e o micro. A atual candidata a isso é a Teoria das Supercordas. Mas aí já é outro papo. Deixemos para a próxima!
( DOCUMENTÁRIO CLIQUE AQUI)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A Menos Compreendida e a Mais Criticada: Evolução



A Teoria da Evolução, ou mais corretamente hoje em dia “Neodarwinismo” ou “Teoria Sintética da Evolução” é um tema surpreendentemente polêmico. Nesse post tenho como objetivo, explicar um pouco do assunto e ao mesmo tempo responder a algumas das críticas mais populares à teoria:

“A Evolução falha ao tentar explicar a origem da vida.”

Esse é um argumento extremamente mal direcionado. É como se alguém dissesse que a teoria da gravitação universal é falsa porque falha em explicar a origem da Lua, sei lá. A evolução se encarrega de explicar como as espécies surgem, como a vida muda e não como ela surgiu. Realmente ainda não existe uma teoria bem fundamentada para explicar como a vida surgiu, mas idéias fragmentadas já existem.

“O homem não veio do macaco! Isso é um absurdo!”

Concordo plenamente! Não existe maior asneira! O problema dessa frase, que virou quase um mantra dos criacionistas, é que NUNCA nenhum cientista sustentou tal alegação. Algumas pessoas já me falaram que alguns professores de Ensino Médio explicam a teoria usando justamente essa sentença caluniosa. Bom, lamento por eles. É realmente triste ver profissionais teoricamente qualificados proliferando asneiras por aí (clique aqui para ver mais pessoas teoricamente qualificadas falando absurdos).
O que realmente aconteceu é que o homem e o macaco, ou melhor, os chimpanzés, orangotangos, bonobos e gorilas, vieram de um mesmo ancestral em comum que nós, humanos. Inclusive, cada vez mais são descobertos fósseis de espécies ancestrais que vão completando a linha evolutiva que chegou até nossa espécie, hoje. (saiba mais)

“Não existem provas da Teoria da Evolução.”

Existe um exemplo clássico que comprova a teoria. Em lugares gelados, como a Sibéria, coelhos brancos obviamente levam vantagem em relação a coelhos de outras cores porque os brancos se camuflam melhor na neve. Mas quando a temperatura sobe, de forma que a neve derreta totalmente ou parcialmente, os coelhos brancos passam a ficar mais destacados no ambiente que possui cor predominante diferente de branco. Assim, os coelhos que não possuíam uma pelagem branquíssima, passam a levar vantagem, e assim, os coelhos brancos podem ser extintos e os coelhos não-brancos podem dominar a área. Outro exemplo clássico é o das mariposas da era industrial. As mariposas rapidamente passaram a ser predominantemente cinzas ou quase pretas, isto é, tons que eram bem parecidos com os tons de fumaça que as indústrias soltavam. Esses são exemplos vivos, que estão aí pra quem quiser ver. Mas o que falar também de inúmeros fósseis, carcaças congeladas e etc? As evidências falam por si mesmas.

“A Teoria da Evolução é só uma TEORIA, o nome mesmo já diz...ela não é um fato.”

Na biologia um conjunto de idéias que tenta explicar um determinado fenômeno mas ainda não foi comprovada, se chama hipótese. Quando essa hipótese passa pelos métodos convencionados na comunidade científica, e se mostra condizente com os fatos, ela passa a subir para o status de TEORIA. Dessa forma, temos muitas teorias em diversas áreas do conhecimento, não só na biologia, que são comprovadas. Ex: Teoria da Tectônica das Placas, Teoria do Big Bang, Teoria da Relatividade Geral e Especial. (Download da Scientific American Especial sobre a Evolução)

Esses são os argumentos mais populares. São fruto de uma má compreensão da teoria por parte de criacionistas ou simplesmente público leigo em geral, que tenta compreender a idéia e muitas vezes a difama espalhando argumentos falsos ou incoerentes que nunca foram nem ditos pelos próprios cientistas. O mais curioso é que essas mesmas pessoas nunca leram nenhum livro ou revista sobre o tema. Para isso, estou recomendando também, aqui na barra lateral direita, um livro interessantíssimo. Aproveitem.

(Para quem está interessado realmente em compreender mais a fundo o tema, CLIQUE AQUI para ver o primeiro vídeo de uma série que explica vários aspectos da Evolução, exibido pelo History Channel)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Maçonaria - Conspirações (PARTE 3)



“Maçons estão planejando dominar o mundo! Eles formam a Nova Ordem Mundial!”, “Em seus rituais de iniciação, eles cospem em imagens de Cristo e adoram a um deus chifrudo com cara de cabrito!”, “Maçons são os novos Templários.”...

Essas são frases que qualquer um pode ler em sites de conspiração, ouvir por aí... Todas essas frases atestam o quanto a maçonaria está envolvida em boatos e, mais importante, o quanto ela é mal compreendida. Nenhuma dessas teorias conspiratórias resiste a uma análise detalhada. Tentarei mostrar o que é fato e o que é ficção nos boatos mais populares.

Inúmeras vezes já ouvi pessoas [geralmente religiosas] falando que os rituais maçônicos são extremamente macabros, que possuem partes em que figuras cristãs são difamadas e que existe uma entidade que eles adoram que possui cara de bode, chifres e etc. Bom, a maçonaria não é como a Igreja Católica, que possui uma espécie de central de comandos, o Vaticano, e que todas as demais filiais espalhadas pelo mundo, obedecem. Isso faz com que as lojas maçônicas tenham relativa liberdade em suas reuniões, abordagem de temas e rituais. O que se observa é que apesar disso, elas seguem praticamente o mesmo padrão em todos esses aspectos, especialmente em seus rituais, que se baseiam no rito escocês, que por sinal, se iniciou na loja de Londres. Esse tal rito é baseado na lenda de Hiram Abiff [comentei no post sobre a origem], e na fuga dos Cavaleiros Templários da França para a Inglaterra, na Idade Média, a partir do início das execuções ordenadas pelo Rei francês e pela Igreja. Não há conhecimento de lojas maçônicas que destoem tão agressivamente do rito escocês a ponto de adorarem bodes ou cuspirem em símbolos cristãos. Não que seja impossível de existir, mas eu diria que se existir, é algo tão mínimo que não deve ser usado para obscurecer toda a maçonaria.

Com relação à difamação de figuras cristãs. Os especialistas não vêem nenhum motivo para tal, já que os maçons não são contra a crença em deus [qualquer divindade], pelo contrário, a crença em uma inteligência superior é o principal critério para ser convidado a ingressar na irmandade.

Outro tema que é bem popular, e acredite, eu já vi até professores universitários simpatizantes dessa idéia absurda, é a da Nova Ordem Mundial. Segundo os conspiradores, a maçonaria estaria tramando, desde sua origem, um plano para dominar o mundo e iniciar um único governo. É claro que seus adeptos contam com inúmeras “provas” disso, como símbolos nas notas de dólar, que acabam sendo interpretados com base no argumento a priori dos conspiradores de que existe de fato uma conspiração, então qualquer sinal, por mais tolo e despretensioso, passa a significar a prova de um plano secreto. É o famoso “cara eu ganho, coroa vc perde.” Na nota de 1 dólar existe uma pirâmide com o cume separado em forma de um “olho que tudo vê”. No post anterior expliquei o que isso significa. Os conspiradores adoram dizer que o olho significa que a maçonaria está à espreita observando o mundo e infiltrado nele. O olho seria a Nova Ordem Mundial construída pela maçonaria. Outros dizem que aquele olho tem a ver com os Iluminatti. Segundo essa teoria, o olho que tudo vê seria um símbolo Iluminatti e que a adoção dele pela maçonaria seria uma prova de que eles estão refugiados dentro da irmandade maçônica.

O fato de a maçonaria não obedecer a uma central, como um tipo de Vaticano maçom, é outro argumento que desaba as estruturas do argumento da Nova Ordem Mundial. Como uma organização sem um líder definido e sem uma forma de organização em escala mundial poderia planejar e botar em prática um plano tão ambicioso? Mas devo ressaltar aqui que não é por esse motivo que a maçonaria está mais fraca e menos presente no cenário mundial, atualmente. Uma lista com alguns maçons influentes: Hugo Chávez, Al Gore e Bill Clinton.


De maneira nenhuma essas intrigas são novidades na história da humanidade. Teorias desse naipe já foram criadas [e coexistem], só que tendo como personagens principais os extraterrestres, Templários, judeus, Iluminatti, 4º Reich e etc.

Mas e o deus com cabeça de bode? Por falar nisso... Os maçons realmente são os novos Templários?? De certa forma, esses dois assuntos se relacionam, e eu os considero os mais interessantes e os mais amplos, então deixarei pra falar mais detalhadamente sobre eles em um post específico! Aguarde!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Turritopsis nutricula - A medusa imortal







A água-viva, esse animal fascinante que aparece do nada nas praias e deixa os banhistas ardendo, acaba de revelar para aos pesquisadores mais uma de suas facetas incríveis e exóticas.

Uma espécie muito curiosa desse animal é a Turritopsis nutricula [na foto logo abaixo]. Seu ciclo de vida começa com a fecundação de um ovo, que daí, desenvolve-se numa larva minúscula e ciliada. Essa larva começa a vagar pelas águas à procura de um substrato para se fixar, como um navio naufragado, uma rocha ou qualquer coisa do tipo que sirva de apoio. Ao se fixar em tal lugar, desenvolve-se um pólipo, que parece um galhinho cheio de ramificações. É como se fosse um pequeno arbusto. Essas ramificações na verdade são pequeninas águas-vivas que ao atingirem a maturidade vão se soltar do pólipo e começar a vagar sozinhas pelo oceano. Até aí, não foi descrito nada que fosse anormal, tratando-se de uma água-viva.


A grande diferença no curioso caso da Turripsis nutricula, é que após atingir o tempo de vida em que, normalmente, uma água-viva morreria, ela simplesmente...Continua vivendo! Explicando melhor: ao invés de morrer, ela simplesmente começa a regredir seu estado biológico. Então, de uma água-viva madura, passa para uma jovem, que depois vira um pólipo e depois uma larva. Assim, o ciclo recomeça e eis que surge novamente uma água-viva.

Pensando um pouco sobre a vida em geral, podemos concluir que o equilíbrio da cadeia alimentar é mantido, dentre outros fatores, graças à mortalidade dos seres, que mesmo sem servir de alimento para outros, alguma hora vão perecer e não haverá uma superpopulação do indivíduo em questão. Agora imagine o impacto ambiental de um animal com as características da nossa pequenina Highlander. Como era de se presumir, elas estão se espalhando pelos oceanos numa velocidade incrível e o medo dos cientistas agora é que elas venham a perturbar drasticamente o equilíbrio das espécies marinhas do planeta.

O lado bom disso, é que da pesquisa desse seres, podem surgir novidades sobre o retardamento do envelhecimento humano, cura de doenças e até sobre nossa tão cobiçada imortalidade. Talvez a Turritopsis nutricula venha a complementar as técnicas da criogenia, que é a técnica responsável pelo congelamento de corpos para que no futuro, os cientistas descubram como acordá-los.


Amar é amar o neutro.


Quem costuma acompanhar os posts deste jovem blog, percebeu que hoje houveram dois posts. Esse aqui é de um escritor que eu conheço, que também se chama Felipe, que escreve para um jornal de Minas Gerais chamado O Grafite. Ele me passou alguns de seus textos e eu gostei , então resolvi postar aqui no blog e de quebra inaugurar uma nova seção, chamada “Reflexões”. Espero que todos curtam! Segue o texto:

O que é o amor? É o transcender o defeito do outro e seguir em frente?
Muitas pessoas confundem o “precisar” com amor. Precisar é quando precisamos do outro quando não temos a nós mesmos. Precisar: é querer que o outro ande por nós, por que já nos esquecemos como andar! Mas não nos esquecemos como andar por que queremos, pelo contrário, esquecemos como andar por que nos garantimos em encontrar alguém que ande por nós. Ande por nós, pois o “cansar” desgasta.

É... o amor virou clichê. E não é clichê adolescente, não! Muitas pessoas, ás vezes já de meia-idade, sofrem por “amor”. Todos um dia sofremos por amor. Mas justamente por que, nesse momento, é onde confundimos os sentimentos. Amor é não transcender ao outro. È viver com o outro. A Transcendência é dolorosa e é como esconder a poeira embaixo do tapete.

Estamos vivendo em uma “era de iludidos” por que o eu interior fica oculto com a vaidade da exibição de “um novo amor”, que não é amor coisa alguma.

O amor não se explica – talvez por isso eu esteja sendo tão prolixo – se sente. Mas o “precisar” se explica e “precisar” não é amar coisa alguma. “Precisar” é o não-amar a si próprio e correr para os braços de uma ilusão. È aí onde nós esquecemos de como andar. O amor não anda por nós: ele nos acompanha. O “precisar” que nos carrega, lentamente, até a ilusão-sem-volta.

Mas amor é, acima de tudo, o auto-amor. É, acima de tudo, o amor pela própria via-crucis. Pela própria via-crucis. Via-crucis, é um termo utilizado na literatura de Clarice Lispector. Como essa literatura é subjetiva, entendo “via-crucis” como o caminho da cruz. O caminho com a Cruz sobre os ombros.

O primeiro amor é: o amor a esse caminho e eu transeunte. Como podemos amar o outro, o outro com defeitos, qualidades e necessidades, se não amamos um pequeno espinho no caminho. O amor não tem regras, mas são necessárias algumas medidas: amar o Neutro. “Amar” ou “precisar” do vivo é facílimo. Mas amar o Neutro é a primeira coisa que devemos amar. O Neutro da vida, amar o Nada. Quando amamos o neutro – uma brisa de ar, a transcendência da existência, o silêncio da noite... – é aí que poderemos amar o vivo. O vivo não-Neutro. Quando pudermos reconhecer o Neutro em alguém, é aí que estamos amando. Quando pudermos reconhecer a pureza e a inocência neutra no outro, é aí que encontramos o amor.

Mas quando encontramos a malícia-do-vivo e do não-neutro nos olhos de alguém, é aí que precisamos. Pois o Ser Humano precisa dessa constante malícia e não-neutralidade: faz parte da Natureza Humana. È mais fácil amar a coisa viva – que vemos... que sentimos e compreendemos – é fácil.

Amar o neutro é difícil. É difícil amar algo insosso, sem forma nem consistência. Mas é esse o amor principal e verdadeiro. O amor por nós mesmos primeiro, pois – quem nunca pensou que atire a primeira pedra – quantas vezes já não nos imaginamos insossos, sem forma nem consistência? Quantas vezes já imaginamos o quão difícil é para nós, amar a nós mesmos? Uma coisa que deveria ser simples! Uma coisa que muitas pessoas que somente “existem” não param para pensar. Acham que comprando a melhor roupa, estão se amando. Acham que comprando a melhor maquiagem, estão se amando. Acham que ganhando a maior quantidade de dinheiro, estão se amando. Não, não! O amor não é isso! Amor é a compreensão de si próprio, o momento da Revelação. O Humano é só, mas o amor acompanha. E se não nos amarmos, quem nos amará?

Precisamos aprender a usar as pernas, pois a paralisia-que-não-é-paralisia é degradante e machuca sem necessidade. O neutro não pede para ser amado: a existência dele é em função de ser amado. E a nossa existência é em função de precisar? Não. É em função de nos encontrarmos e amarmos a nós mesmo acima de tudo. Amarmos nossa matéria. Antes de amar a coisa viva que pulsa e lateja.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Tudo é Relativo. Ou não. (Parte 1)




“Tudo é relativo”. Essa frase se tornou um clichê, que tem inspiração na Teoria da Relatividade, criada por Einstein. Mas é claro, como muitas citações populares [ou todas], ela é fruto da má interpretação ou mesmo da deturpação de algo que foi dito. Mas eu vou tentar esclarecer essa teoria que revolucionou a ciência e, provavelmente, no mínimo mudará suas convicções sobre o tempo e o espaço.

DE NEWTON A EINSTEIN

Na escola aprendemos que o tempo é algo estático no sentido de que não depende de observadores, ele varia linear e constantemente para tudo e todos. O mesmo vale para o espaço. Distâncias são as mesmas independentemente de quem as está medindo. Já a velocidade é algo relativo, ou seja, depende de um referencial, não existe velocidade absoluta. Essas máximas estão expressas nas Leis de Newton. Elas valeram até 1905, quando Einstein publicou a Teoria da Relatividade Especial.
Tudo começou quando na sua adolescência o pequeno e inseguro Albert Einstein começou a imaginar o que aconteceria se ele conseguisse correr ao lado de um raio de luz, na mesma velocidade. O pensamento por trás disso é fácil. De acordo com Newton, a velocidade só pode ser medida se comparada com o deslocamento de outro corpo, o famoso referencial. Se dois corpos possuem a mesma velocidade, então os dois estão parados um em relação ao outro. Eles literalmente se vêem parados. É como um carro A correndo exatamente ao lado do outro, B, à mesma velocidade. O motorista do A vê B parado e vice-versa. O que Einstein fez foi aplicar esse raciocínio à luz. O que aconteceria se alguém atingisse a velocidade de 300000 km/s, olhasse pro lado e visse um raio de luz viajando a essa mesma velocidade? Como seria ver a luz parada?!

TEORIA DA RELATIVIDADE ESPECIAL

A solução para esse enigma foi a Teoria da Relatividade Especial. Após vários experimentos cuja descrição aqui seria bem cansativa, Einstein concluiu e comprovou que a velocidade da luz é constante sempre. Ela não precisa de um referencial. Ela é a única coisa no universo, conhecida por nós, que possui velocidade independente do referencial usado. Esse fato trás conseqüências intrigantes.
Imagine alguém andando em um carro a velocidade constante, em uma rua com pedestres e árvores. Com certeza, o motorista ao olhar para as árvores na rua que se localizam bem afastadas do carro, as verá como se estivessem passando em câmera lenta. As árvores mais próximas passarão numa velocidade bem maior. A impressão que dá, dentro de um carro com velocidade constante andando numa rua completamente lisa, é que na verdade são as coisas lá fora é que estão passando pelo carro e não o contrário. Mas com certeza, para um pedestre, o carro é que estará se movimentando pela estrada. O grande trunfo de Einstein foi aplicar essa lógica para o tempo!
Usando o mesmo exemplo de antes, imagine agora que o carro possui no seu painel, um cronômetro e que existe um pedestre também cronometrando o tempo que ele leva para concluir um devido percurso numa velocidade de 180 km/h. Ao final do percurso, o cronômetro do pedestre marca 30s, e, você deverá pensar, obviamente que o cronômetro do carro marcará os mesmos 30s. Mas ele estará constando 29,99999999999952. Sim! Isso significa que corpos em movimento se deslocam mais rapidamente no tempo do que corpos estáticos, como o pedestre. Nesse caso, a diferença foi mínima, mas conforme um corpo qualquer se aproxima de velocidades próximas a da luz, esse tempo economizado passa a ser bem expressivo!

LUZ ABSOLUTA E O TEMPO

Esses exemplos ocorrem a todo tempo em nossas vidas, mas são tão insignificantes para nós, corpos que se deslocam lentamente [com relação à velocidade da luz], que os efeitos da Relatividade não são perceptíveis aos nossos sentidos. Agora darei mais um exemplo, um pouco mais complexo.
Um homem está andando de bicicleta à velocidade constante de 10 km/h, em uma pista perfeitamente lisa. O homem resolve parar e pegar uma bola e jogá-la para frente a uma velocidade de 3 km/h. Depois, ele volta a andar com velocidade constante de 10 km/h e joga a bola estando em movimento! Dessa vez, a velocidade da bola será 13 km/h, por razões já presumíveis. Agora imagine, hipoteticamente, que o homem segura um fóton em sua mão [fóton é a unidade indivisível da luz] e o joga, estando com a bicicleta parada. Esse fóton se deslocará numa velocidade de 300000 km/s. Agora, o homem volta aos seus 10 km/h e tenta jogar o fóton à frente assim como fez com a bola. O normal, de acordo com nossa lógica newtoniana, seria presumir que o fóton dessa vez se deslocará com velocidade de 300.000,002777Km/s., mas não é o que acontece... O fóton vai continuar se deslocando a 300000 km/s! Isso é uma conseqüência direta da constância da velocidade da luz.
Essa capacidade da luz também gera interferências no tempo, apesar de no exemplo acima ela não ser ressaltada [esse efeito também é observado num dos exemplos anteriores, que é o do carro e da medição dos cronômetros]. Agora um exemplo sobre isso:
Em um trem, dois homens estão sentados um de frente para o outro e exatamente no meio deles existe uma lâmpada apagada. Em um banco próximo, existe outro passageiro, solitário. Na plataforma existe uma mulher. No momento em que a lâmpada é ligada, o passageiro solitário vê que a luz atinge os dois homens sentados ao mesmo tempo. Mas e a mulher na plataforma? Ela vê que o homem que está de frente para a direção na qual o trem se desloca está indo em direção ao raio de luz, que por sua vez está indo em direção a ele. O homem sentado na direção oposta à da direção do movimento do trem acaba se deslocando de forma a se distanciar do raio de luz. Conclusão: a mulher vê o primeiro homem sendo atingido mais rápido pela luz do que o outro; e o passageiro solitário vê os dois homens sendo atingidos ao mesmo tempo. Os dois estão certos, isso não é algo subjetivo, é algo realmente inerente às leis da física.

CONCLUSÃO

A explicação para esses efeitos incríveis é a seguinte: na verdade, o movimento de todos os corpos está distribuído entre as dimensões do espaço e do tempo. Dessa forma, um corpo que esteja totalmente estático no espaço, está se movendo totalmente no tempo somente. Já um corpo que esteja se movendo totalmente dentro da dimensão do espaço, estará se deslocando nulamente no tempo. Por “se movendo totalmente dentro da dimensão do espaço”, entenda “estar se deslocando na velocidade da luz”. A única coisa identificada até hoje que possui essa habilidade, de se deslocar totalmente no espaço e fora do tempo, é a luz, por isso, alguém que viajasse na velocidade da luz estaria literalmente viajando no tempo.
Dessa forma, vemos que aquela frase que parecia tão normal e desprovida de complexidade, “Tudo é relativo”, começa a ser entendida. E ela se mostra incorreta, já que a luz é absoluta em seu movimento.
Enfim, a teoria de Einstein é mais ampla, tendo ainda a Teoria da Relatividade Geral, que abordarei em breve.