sábado, 17 de julho de 2010

A Redenção do Maior Vilão de Todos os Tempos?

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Há muito tempo eu já tinha percebido que nas religiões existem duas correntes intelectuais que às vezes convergem e também, em grande parte das vezes se bifurcam e vão por caminhos diferentes para talvez novamente se encontrarem no futuro e depois se bifurcam novamente e assim vai. Estou me referindo à tradição e à literatura oficial relifiosa. Nas religiões que registram sua mitologia de forma escrita, em livros, papiros, paredes, pedras...essa disparidade se torna mais fácil de encontrar. Por exemplo, é popular toda a história que envolve o dilema sobre Maria Madalena ser uma prostituta ou somente uma seguidora de Jesus ou os dois. A tradição cristã já solidificou a visão dela como uma prostituta que passou a seguir Jesus, apesar de na Bíblia não existir qualquer passagem que diga que Maria Madalena era essa prostituta. E um fato interessante à respeito disso é que os manuscritos mais antigos do evangelho onde aparece a passagem da prostituta que Jesus acaba salvando, curiosamente não apresenta essa passagem. Logo, os pesquisadores concluíram que essa foi uma passagem adicionada tardiamente por copistas do período inicial da Idade Média. Além disso em 1969 o próprio Vaticano declarou que errou ao estigmatizar Maria Madalena como a prostituta do trecho. Esse é um exemplo um tanto conhecido, mas agora vou entrar numa tradição tão incrustada na nossa cultura, até mesmo em pessoas não religiosas, cujas controvérsias são tão pouco conhecidas, que provavelmente vou causar impacto com minhas palavras.


E se eu dissesse agora que o Satã maligno e demoníaco em que nós sempre ouvimos falar, na verdade fizesse somente parte da tradição cristã e nem mesmo encontrasse fundamentação na Bíblia? Pois é isso que o autor Henry Ansgar Kelly afirma em seu livro Satã – Uma Biografia. Kelly mostra que no Antigo Testamento hebreu aparecem 3 exemplos de anjos que aparecem como satãs: o “Anjo de Javé” que aparece como um satanás, ou seja, adversário, contra Balaão e sua jumenta; na passagem de Jó, onde é citado como “um filho de Deus”, quando Javé lhe dá permissão para testar Jó; e no livro de Zacarias, onde um satanás angelical funciona como um acusador contra o Sumo Sacerdote Jesus, enquanto o Anjo de Javé o defende.

No Antigo Testamento de tradução grega, ou seja, a Septuaginta, a parte de Jó e Zacarias não citam os anjos como satãs, mas sim como “Satã”. Percebe-se daí que houve uma drástica mudança de sentido de uma tradução para outra. Na versão hebraica, “satã” ou “satanás” é uma espécie de título aos anjos que vêm aqui na Terra testar os judeus ou acusá-los. Na Septuaginta não existem mais anjos, e sim um único indivíduo denominado “Satã” (em grego ho diabolos).

Basta um exame superficial do Novo Testamento para também encontrar discrepâncias. No Evangelho de Lucas, Satã (ho Diabolos) testa Jesus no deserto e lhe diz, mostrando a ele todos os “Reinos do Mundo”:


Dar-te-ei todo esse poder e a glória desses reinos, porque me foram dados, e dou-os a quem quero. Portanto, se te prostrares diante de mim, tudo será teu. [Lc 4,6-7]


Está bem explícito aqui que parece que Satã é tratado como uma espécie de governador do mundo onde os reinos pertencem a ele e que por isso pode fazer com eles o que quiser, inclusive dá-los a Jesus. Mas quem deu esses reinos à Satã? Bom, só vejo uma resposta possível: Deus. Então, Satã seria como um Vigário Geral de Deus na Terra.

Além de governador, ele parece ter algumas outras funções. Note essa passagem:


Um dia os Filhos de Deus se apresentaram diante de Javé e o satã estava entre eles. Javé disse a satã: “De onde você vem?” O satã respondeu a Javé: “De rodear e passear pela Terra”. Javé disse-lhe: Observou meu servo Jó? [Jó 1.6-8]


E o restante já é conhecido. Deus começa a elogiar Jó dizendo que ele é um servo fiel, um homem íntegro e etc, mas mesmo assim o satã insiste que Javé permita que ele teste Jó para ver até onde vai sua fé. Então Deus aceita o desafio e manda diversas desgraças para Jó, a fim de testar sua fé assim como o satã o aconselhou. Ora, o que satã parece fazer aqui? Anteriormente vimos que Satã, no Novo Testamento, diz para Jesus que os Reinos do Mundo pertencem a ele, e agora ele diz que estava rodeando a Terra, passeando por lá. Isso parece ser um indício de outra função de Satã (ou dos satãs, como na tradução hebraica): patrulhar a Terra, testando os judeus vendo até onde a fé deles ia. Seus testes incluem infligir doenças, causar a decadência econômica e etc.

Paulo faz revelações bem interessantes sobre as atribuições de Satã. Num certo trecho da Bíblia, Paulo expressa uma indignação grande ao saber que um dos cristãos em Corinto teve relações com a mulher ou a concubina de seu pai e que sua congregação havia tolerado esse comportamento. Então Paulo faz um julgamento solene de excomunhão e ainda os instrui:


Seja esse homem entregue a Satã para destruição de seu corpo, a fim de que sua alma seja salva no dia de Nosso Senhor Jesus Cristo. [1Cor 5,5]


Paulo parece atribuir a Satanás a tarefa de reabilitação ou talvez de penitenciária, ou os dois. E essa interpretação está de acordo com Jó, onde Deus diz ao Diabo(não esqueça que Diabo tem o mesmo sentido de Satã, ou seja, vem da tradução grega que fala em ho Diabolos):


 Veja, eu lhe o entrego, mas deves proteger sua alma. [Jó 2,6]


Esse texto apresentando de forma resumida muito do que consta no livro de Kelly, já nos dá uma idéia da diferença entre o que a tradição nos diz e o que de fato está escrito na Bíblia. Mas algumas questões ainda mais interessantes ainda estão por vir: a Serpente que fez com que Eva provasse do fruto proibido é Satã? Dragões realmente relatavam Satã originalmente? Afinal, quem é Lúcifer? Confira essas questões na segunda parte.

[Muitas vezes eu vejo as pessoas confundirem o meu interesse em mitologia e religião com a possibilidade de eu acreditar nessas coisas. Que fique claro que eu não creio na existência de seres sobrenaturais e nem nada do tipo que envolva crenças, eu simplesmente tenho interesse em relação a o que os primeiros homens que escreveram sobre determinado mito ou crença qualquer, tinham em mente originalmente.


4 comentários:

Pri Rodrigues disse...

Boooom, eu sou católica, vc bem sabe .. então prefiro não problematizar as coisas que li aqui! :P Mas acho mt legal vc se questionar sobre essas coisas, mesmo que não acredite .. ser curioso tem seu lado bom \o/

Felipe C. Novaes disse...

Entendi...Ah mas refletir é bom pra todo mundo...rs Às vezes simplesmente acreditar não vale a pena. Se for para acreditar, eu preferiria que fosse em algo mais sólido do que simplesmente a tradição.

Juliana Abrantes disse...

Gostei do post, mas tem que gostar muito do assunto pra ler tanto sobre e não ser religioso!!
Nesse livro diz algo sobre a imagem que dizem ter satã? tem algo a ver com o baphomet? *não sei escrever*

Felipe C. Novaes disse...

uahsuha É assim mesmo que se escreve o nome! rs Na Bíblia não vem falando nada sobre uma possível imagem de Satã. As que a gente conhece foram feitas por artistas medievais inspirados por autores da Idade Média, como Justino, Tertuliano e Orígenes. Já o caso do Baphomet não tem muito a ver também....quer dizer, tem sim, mas ele foi uma imagem inventada pela Igreja Católica para incriminar os Templários e poder mandá-los pra fogueiro sob a acusação de adoração dessa imagem ae. Não tem nada a ver com a biografia original do personagem Satã. Pode ver também que o Baphomet é formado com vários pedaços de antigos deuses da fertilidade, principalmente, de outras culturas, como o bode, pentagrama...
Entendeu?hehe

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