quarta-feira, 2 de novembro de 2011

E se Estivermos Todos Conectados à Matrix?

+A +/- -A


 Matrix é um dos melhores filmes que eu já vi. Em todos os sentidos ele nos chama a atenção positivamente. Para os que costumam se conectar menos com o significado, Matrix oferece os efeitos especiais que até mesmo para os padrões de hoje exibem qualidade; para aqueles que gostam mais de analisar filosoficamente um filme, Matrix tem uma história interessantíssima e atual, com implicações filosóficas, religiosas, tecnológicas e existenciais (para ler sobre a relação entre Descartes e o filme). Melhor para aquele que se contenta não só com um, mas com os dois aspectos. Contudo, o que menos vejo - mesmo entre as pessoas admiradoras de um filme profundo – é a possibilidade de o filme dizer algo sobre a nossa realidade atual. Por que não levar a possibilidade de vivermos em uma matrix à sério ao menos por uns momentos? 


Pílula Vermelha
No livro A Pílula Vermelha – que é uma coletânea de vários artigos organizados por Glenn Yeffeth –, no capítulo intitulado Vivemos na Matrix? O Argumento da Simulação, o filósofo Nick Bostrom enumera três argumentos, em que necessariamente um deles deve ser verdadeiro:
- É muito provável que a espécie humana seja extinta antes de atingir um estágio pós-humano.
- É extremamente improvável que qualquer civilização pós-humana processe um número significativo de simulações de sua história evolutiva (ou variações dela).
                                            - Com quase toda certeza, vivemos numa simulação de computador.
Eu acrescentaria mais alguns argumentos, antes do último:

- É bem provável que a espécie humana desenvolva meios de se conectar a uma realidade virtual. 

- Talvez nós já estejamos conectados.
 
Aparentemente, essas proposições são insanas demais para serem verdadeiras, não é mesmo? Talvez uma das primeiras coisas que vc faça seja desistir de ler o texto e ir fazer algo que ache mais sensato, ou, talvez, olhe ao redor e pense como pode ser possível que tudo isso possa ser gerado por uma simulação de computador.
Antes de tudo, claro, temos que ter em mente que a intenção de uma criação como essa seria exatamente fazê-la parecer tão real que não fosse possível diferenciar a vida “real” da virtual. Olhando para o crescimento exponencial da tecnologia, não é absurdo imginar um futuro com possibilidade de se criar máquinas que possam fazer isso com perfeição (ou melhor, espertas o bastante para nos enganar). 

Por Qual Razão Criaríamos uma Simulação?

A desesperança e falta de sentido de um mundo consumista e niilista

Vivemos numa época regida por uma mistura de presença e ausência de esperança. Vemos que o projeto iluminista de que a ciência que levaria a humanidade para o progresso e resolução de todos os seus problemas, não aconteceu. Ao contrário, foi constatado que apesar de todo o progresso que a ciência realmente trouxe e continua trazendo, ela é um método utilizado por seres humanos com interesses pessoais envolvidos. Isso significa que ela pode ser usada de várias formas diferentes; pode ser usada para curar doenças ou para construir armas. Ao mesmo tempo, como forma de descobrir como as coisas funcionam, ela pode nos oferecer evidências sobre a origem do universo, da vida e de nossa espécie, que muitas vezes frustraram aqueles que insistem em acreditar em uma verdade pessoal, ou coletiva, alimentada pela fé. Movimentos como Iluminismo, Renascimento e o contato com outras culturas, acabou por afastar a imagem de uma divindade judaico-cristã ativa, preocupada com as ações humanas e comandante da natureza. No máximo - se formos ter uma visão realista – o que conseguimos ressuscitar é o deus das lacunas (o que a ciência ainda não explica ou explica, mas não tão satisfatoriamente, é deixado para um Deus, deuses ou algum Arquiteto do Universo). Fora isso, a superficialidade que se tornou mais comum com o advento do capitalismo e do consumismo se tornou algo que nos destrói a cada dia, mesmo que não percebamos.
Essas são só algumas das motivações para a criação de mundos virtuais. Aliás, no nosso dia-a-dia nos prendemos a muitos mundos “virtuais”, só que em doses menores e com grau de imersão menos intenso: filmes, jogos, redes sociais, religião, livros, trabalho e até uma conversa sobre amenidades em um bar. Talvez algum grau de descolamento da realidade seja algo inerente às atividades humanas, em menor ou maior grau dependendo da época, do local e do indivíduo em questão. Dessa maneira, a matrix seria só mais um passo em direção a essa tendência, como forma de nos livrar de uma realidade desalentadora.

Um novo estilo de estudo de campo e pesquisas históricas

Outra razão possível poderia ser algum tipo de experimento científico. Imagine como seria útil para historiadores se fosse possível observar como se dava a interação humana em épocas passadas? Para estudiosos seria uma verdadeira revolução poder criar ambientes complexos remontando épocas passadas e conectando o cérebro de humanos reais, sendo que esses humanos interagiriam por meio de avatares e acreditariam serem os próprios humanos do mundo real, mas acreditando estarem na época da simulação. A tecnologia vista no filme, em que podem ser introduzidos em segundos os conhecimentos sobre quase qualquer coisa que se queira – de técnicas de kung fu até como se pilotar um helicóptero – seria particularmente útil, bastando ter um banco de dados do vocabulário, costumes, e conhecimento peculiar do momento histórico simulado. Essas simulações não necessariamente teriam que ser obra de algum cientista e suas cobaias, mas também poderia ser o projeto de ciências de uma aluna do Ensino Médio. Seríamos como uma grande colônia humana de formigas, mas sem ter que se preocupar com uma redoma de vidro gigante dentro do quarto. 

Humanos seriam necessários?

Continuando a idéia da aplicação em estudos, poderíamos fazer o questionamento acima. Explico: será que uma civilização suficientement avançada a ponto de ser capaz de criar uma matrix, dependeria de humanos para habitá-la, com o único propósito de fazer pesquisas?
Para refletir sobre esse caso, é preciso que consideremos as evidências que atualmente as neurociências nos dão. Elas nos mostram que o conceito de alma humana, utilizada por milênios por religiosos de todo o mundo, está ficando cada vez mais obsoleto no sentido de explicar a emoção, sentimentos, ação volutária e etc. Hoje podemos até mesmo criar membros robóticos que se movem de acordo com a nossa vontade, graças a conexões feitas entre o membro e neurônios. Miguel Nicolelis, o brasileiro que é pioneiro na área, sonha com o dia em que a mesma lógica será usada para curar doenças mentais, como a esquizofrenia, isto é, ajudando a “consertar” redes neuronais deficientes através de reparos proporcionados pela implantação de microchips em nosso cérebro (Leia Muito Além do Nosso Eu, de Miguel Nicolelis) . 

Conclui-se daí, que todos os atributos que antes eram legados à uma alma imaterial, na verdade, existem graças a um substrato orgânico: o cérebro. O cérebro é formado por neurônios e cada uma dessas células possui um modus operandi relativamente fácil de ser replicado por computadores. Não descreverei aqui o funcionamento dessas células, mas elas funcionam, basicamente, por meio da despolarização da membrana que faz com que seja liberad um impulso elétrico ou químico que é passado para outro neurônio. Agora, visualize uma orquestra de células fazendo isso. Pronto, você terá um cérebro capaz de realizar tudo que o cérebro humano pode fazer; pelo menos em princípio é isso que se espera. Isso mostra que podemos reproduzir o funcionamento de um cérebro, uma máquina orgânica, em uma não-orgânica, como um super-computador. Essa seria a matéria-prima para a criação de um cérebrocibernético comparável ao do homo sapiens. Tudo que teria que ser feito seria fazer isso não à nível só de hardware, mas de software também. Seria como criar um agente Smith. Voltando à questão inicial, teríamos a criação de cérebros virtuais que, a princípio, funcionariam como os cérebro orgânicos dos humanos, o que tornaria desnecessária nossa presença na matrix. E se formos esses programas? 

Religião e Matrix – Uma Possível Conexão
Todos esses cenários possíveis, com diferentes motivações que levariam uma sociedade do futuro a criar uma simulação da vida e do mundo, poderiam resultar em consequências um tanto confusas. Imagine que - como no exemplo dado sobre o mundo sendo um lugar tão desagradável que as pessoas preferiam se conectar a mundos de mentira – os conectados possam ficar por lá durante toda a vida, se assim desejarem. Isso daria tempo suficiente para que toda uma vida complexa fosse formada ali, uma vida exatamente como nós temos hoje. No futuro dessa sociedade – como ela reproduziria a sociedade humana em determinada época – poderia também exisir uma sociedade pós-humana capaz de criar a matrix. Assim, num mundo simulado que imita o real, as mesmas questões humanas e sociais apareceriam, então, uma sociedade virtual estaria fadada a ir pelo mesmo caminho que uma real. Haveria uma matrix dentro de outra. Por sua vez, essa segunda matrix, também poderia ir pelo mesmo caminho. Existiria uma boneca russa, mas composta de várias “matrix”. Traduzindo em termos platônicos, essa primeira matrix seri uma simulação e as outras formadas dentro dela, a partir daí, seriam simulacros, isto é, simulações da simulação. 

Esse cenário tornaria coerente a existência de um tipo de fé em relação a um Ser criador do universo, porque, afinal, o universo seria a criação de um programador. 

Até mesmo a reencarnação poderia assumir essa capa metafísica moderna, se imaginarmos que essa boneca russa de simulações foi planejada desde o início pelo primeiro ser humano (real) a criá-la. Esse humano talvez – por diversão, nunca se sabe – tenha estabelecido a seguinte regra geral para reger seus sistemas dentro de sistemas: todos os usuários conectados teriam o direito de viver uma vida virtual, mas seguindo certas regras morais para que a convivência dentro do sistema se dê da melhor forma possível. Cumprindo-as, não haveria uma morte real para esses indivíduos, mas uma transferência instantânea para um mundo virtual anterior. E assim por diante, até que se chegasse à fonte de tudo, ao mundo real, ao Mundo das Idéias de Platão, poderíamos dizer. Caso não haja um desempenho adequado, o conectado permaneceria naquele mesmo simulacro. 

Conclusão
O que podemos absorver dessa reflexão é que não possuímos nenhuma forma segura de nos safar da possibilidade de estarmos conectados. Também vemos que a estrutura que faz parte da lógica criadora das religiões e de crenças em geral é muito parecida, isto é, é sempre algo impossível de se comprovar empiricamente e que – de uma forma ou de outra – faz com que a morte não seja o fim propriamente dito. Essa perspectiva, ao mesmo tempo que nos traz certo alívio existencial, dá significado mais facilmente à vida e ao Universo; bem como um mistério. 

O fato é que a probabilidade de isso ser verdade não é pequena – tanto com relação à uma civilização pós-humana criar a matrix quanto de estarmos dentro dela. Afinal, vemos a tecnologia facilitar e nos mergulhar cada vz mais em seu mundo, fazendo com que esqueçamos do “real”. Mas o que é real mesmo, hein?