sábado, 20 de novembro de 2010

O Paradoxo da Onipotência

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O conceito de onipotência é íntimo da sociedade ocidental, principalmente (ou essencialmente) por ter sido fundada sob os pilares  da religião judaico-cristã, que prega a existência de um Deus onipotente e onipresente. A onipotência, mesmo desvinculada de Deus, é problemática em si mesma porque rompe com aspectos essenciais da lógica. Tentarei mostrar como se dão essas inconsistências.


O exemplo mais conhecido do Paradoxo da Onipotência é o seguinte: tome como exemplo um ser divino, onipotente, que tudo pode. Certamente ele pode fazer o que bem entende. Seu poder criativo é infinito. Então, ele se propõe a criar uma pedra. É a pedra mais pesada de todas. Nada é mais pesado que ela. Ela é tão infinitamente pesada, que nem mesmo o ser que a criou é capaz de movê-la. Essa situação, evidentemente, anula o pressuposto da onipotência. Na medida em que um ser cria algo que nem ele mesmo pode controlar, ele não é onipotente. Mas, digamos então que o fato de ele ser onipotente faça com que não possa criar essa tal pedra absolutamente imóvel. Isso também anularia o seu caráter onipotente porque, na medida em que seu poder criativo é limitado por alguma lei, alguma condição...tal ser já não é todo poderoso no sentido de poder tudo.

Hoje em dia, ao ouvirmos o discurso de qualquer cristão, podemos perceber que inevitavelmente a expressão “livre-arbítrio” será pronunciada. É curioso perceber que na Bíblia não existe nenhuma referência à esse tipo de coisa porque tal visão é derivada de uma suposta interioridade humana que passou a ser mencionada diretamente pela primeira vez, como fazemos hoje, por Santo Agostinho. Ele foi o primeiro a falar em livre-arbítrio. Mas deixemos essa discussão pra outra hora. O que quero destacar aqui é que esse “poder” que os homens possuem, concedido pelo próprio deus judaico-cristão (de acordo com as leituras pós-agostinianas), é poderoso de forma a anular a própria influência divina sobre nós. Temos o poder da escolha, que supera a mais forte das influências sobrenaturais sobre nós. Essa situação se encaixa no exemplo da pedra imóvel, em que o livre-arbítrio é análogo a ela. Isso significa que para a tradição religiosa mais atual, Deus nos fez dotados de algo que foge do controle Dele próprio. Se Ele não pode exercer poder sobre nosso direito inviolável de escolha, ele não é onipotente. 

Todos conhecem a minha posição ateísta, mas meu intuito nesse post não é afirmar que Deus não existe, mas mostrar que mesmo considerando sua suposta existência, ele não pode ser onipotente simplesmente porque a idéia de onipotência viola a lógica. Mesmo eu não tendo a intenção de desafiar a opinião dos outros, acho que se deparar com essa idéia deveria pelo menos abrir um pouco a mente de pessoas fechadas demais, para que passem a questionar minimamente suas crenças. Talvez, quem por ventura se sentir à vontade a enfrentar (amigável e educadamente) esse questionamento, afirmará que Deus é onipotente e por isso não precisa seguir lógica alguma. Suspeito desde já que o mesmo que afirma isso, também poderá responder em outras situações que as leis da física são uma prova de que Deus criou as leis que regem o universo. Bom, essas leis seguem a lógica, já que podem ser traduzidas em princípios matemáticos. Será que Deus criaria um mundo regido pela lógica mas ele mesmo seria um caos ambulante sem leis definidas para si mesmo?


18 comentários:

Patrick disse...

Amigável e educadamente venho comentar esse questionamento. hahaha
Provavelmente você ficaria decepcionado se eu viesse pra você e respondesse que "não é porque Deus não segue a lógica humana, que não possa haver lógica no que Ele faz".
Isso é sim um dos meus argumentos, mas não o único em que penso.
Vamos a mais um raciocínio lógico.
Eu afirmo pra você que eu sou pai agora.
Primeiro você ia ficar bolado por eu nunca ter te contado isso.
Depois você reflete e cogita uma outra possibilidade.
Na verdade eu provavelmente digo que tenho todos os meios pra ser pai. Aqueles biológicos e psicológicos também pra isso.
E não sou pai de FATO porque não é minha escolha.
Ou seja, eu sou pai em potencial. Tenho o "poder" pra ser pai, mas não sou por escolha.
No exemplo seu que eu mais gostei, falando sobre o livre-arbitrio, digo que Deus realmente não vai interferir nas decisões de ninguém, não porque Ele não pode, mas sim porque Ele não quer. E uma coisa é muito diferente da outra.
A expressão livre-arbitrio não se encontra na Biblia, mas seu principio é apresentado em diversos textos.
Agora pegando o exemplo da pedra de peso infinito, sei que tem gente que gosta de fazer o que chamo de "hipóteses inúteis". E sei que esse exemplo não é seu.
Hipótese inútil é como se fosse algum adulto relembrando quando brincava de "verdade ou consequencia" criando cenas que são absurdas, improvaveis e sem objetivo.
Deus pode até não existir pra algumas pessoas, mas as pessoas que gostam de falar de Deus ficam inventando exemplos que seriam de longe coisas que qualquer ser infinito fosse fazer. Afinal, uma das lógicas de Deus é ter objetivo no que faz.
Brincar de fazer pedras infinitamente pesadas ou criar planetas imovíveis apenas por criar seria como se eu fosse sair "brincando de ser pai". Fazendo sexo sem camisinha e sem anti-concepcional. E ainda no final não quisesse ter o filho. Brincar inutilmente e sem objetivo com meu "poder".
Se isso não faz sentido pra alguns seres humanos, quanto mais pra um Deus infinito.É meio que totalmente lógico.(fiz um paradoxo agora.hahaha)
Juro que tentei ser amigável e educado, mas você sabe que um recurso que gosto de usar é o humor. hihihi
Ainda bem que somos amigos!
Aguardo como sempre a resposta e como sempre sei que será boa. Mas você viu neh, só aqui dentro se abrem muitos outros tópicos pra se debater como sempre.
abração.

Felipe C. Novaes disse...

haha Inicou o comentário falando estilo Mestre Yoda.

Mas então...sobre isto: "não é porque Deus não segue a lógica humana, que não possa haver lógica no que Ele faz", eu escrevei um post em breve.

"digo que Deus realmente não vai interferir nas decisões de ninguém, não porque Ele não pode, mas sim porque Ele não quer." Gostei dessa...realmente é uma lógica alternativa. Mas mesmo assim me cheira meio estranhamente a hipótese de que um "Pai divino" tenha atitudes tão demasiado humanas. Eu esperaria mais de um ser divino.

Ah cara....mas sejamos justos....rs "Hipóteses inúteis" são bem funcionais quando se quer expor uma logica relativamente complicada. Essas hipóteses absurdas servem pra gente compreender a lógica por tras de coisas mais complexas(Claro que muitas vezes essas hipóteses realmente são infrutíferas).

"Afinal, uma das lógicas de Deus é ter objetivo no que faz"

Entendi. Mas isso levantou uma questão na minha mente: supostamente, qual foi o objetivo de Deus ao nos criar e a criar todo o mundo?

Segundo os pesquisadores da área das religiões antigas, incluindo o Judaísmo, o Gênesis judaico é inspirado nas mitologias que rolavam na Mesopotâmia. Nelas, os deuses, ou um deus específico, criava seres humanos através do barro para que eles fossem uma espécie de escravos, cuidando dos jardins que antes eram cuidados pelos deuses. E nesse jardim se encontravam árvores que davam diversos frutos e diversos animais, que seriam de serventia para os humanos lá. Alguns relatos mitológicos falam de um jardim com uma árvore da Vida e outra do Conhecimento, outras de uma única árvore em que o fruto da Vida dava também o Conhecimento...e a serpente também SEMPRE aparece nesses relatos, ma não como ser maligno e malicioso; mas como símbolo da vida eterna (porque a cobra troca de pele, o que, antigamente, sugeria que ela revivesse) e do conhecimento. No Judaísmo não é bem assim né....Mas é um fenômeno comum, as novas tradições mitológicas sempre assimilam componentes das tradições mais antigas, ás vezes demonizando-os, ou não. Enfim....fugi do assunto...haha Espero que tenha apreciado a resposta.

Raphaela Soares disse...

Concordo com o seu post e acrescento que já tive uma discussão com esse tema e a resposta que obtive de um cristão, foi a seguinte: "uma pedra que nem mesmo um ser onipotente pode mover, não é uma coisa de existência possível, logo não merece ser discutida". É isso que as pessoas fazem, se você lhes dá um bom argumento que os coloca contra a parede, eles simplesmente rebatem dizendo que "não é algo possível, logo não merece ser discutido"... Claro, porque a idéia de existência de um ser onipotente, onipresente, "oniqualquercoisa" se autosustenta, certo? Aff! Isso quando a resposta não é "paradoxo serve apenas de diversão, é algo que existe para não ter resposta, por isso não serve de argumento". Eu penso que se existe uma falha na lógica de qualquer assunto, ela merece ser discutida e levada em conta sim!

Felipe C. Novaes disse...

Po, esse cristão caiu no segundo buraco lógico possível nessa situação, ou seja, ele disse que um ser onipotente não poderia criar uma pedra que ele mesmo não pudesse mover. Isso significa que esse ser tem seu poder supostamente absoluto limitado por algo. Se ele tem limites, ele não é onipotente. De qualquer forma a onipotência encontra problemas lógicos pra se estabelecer. Algo ou alguém que pode simplesmente TUDO é algo inconcebível em nosso mundo governado pela lógica.

Raphaela Soares disse...

Na verdade, não. Ele disse que a pedra não poderia existir.... A saída dele foi dizer que: se a premissa "Deus é onipotente, logo uma pedra que Deus não poderia mover é impossível de existir". Concluindo, tal pedra JAMAIS poderia extistir, logo não serve de argumento. Entendeu??

Felipe C. Novaes disse...

Entendi.
De qualquer forma eu acho que isso não se sustenta. Não faz sentido o que esse cara disse, ou seja, que essa pedra simplesmente não pode existir. Por ser onipotente esse ser pode fazer qualquer coisa. Mas fazer qualquer coisa implica na criação da tal pedra. Mas, se falarmos que ele não pode criar algo desse tipo, esaremos também afirmando que ele não é onipotente pois não pode fazer o que bem entender.

Enfim...não sei como o que o seu colega disse se conecta a rede de argumentação para fazer essa lógica dele fazer sentido.

Patrick disse...

hauhauhuahuahuahuahuahua. Mestre Yoda. com certeza com ele pareci.
HAHUAHUAHUAHUHAU
Claro que apreciei tua resposta.
Agora só complementando com os post da Rafaela tenho algo a dizer.
Infelizmente existem pessoas, que por serem PESSOAS tendem a se firmar numa convicção que pode as levar a ficarem cegas, surdas e mudas.
Isso vale pra cristãos,judeus,mulçumanos,budistas,ateus,esquerdistas,socialistas...
Qualquer um desses,se não tomar cuidado, pode cair num campo em que não abre mais chances de ouvir e apreciar novos pontos de vistas para analisar. O legal do Felipe é que ele é capaz de dizer"Gostei dessa...realmente é uma lógica alternativa.", mesmo que ele ainda assim mantenha a sua opinião própria.
BOM ARGUMENTO é algo tão subjetivo. Mas eu gosto de dizer que bom argumento é aquele que se encaixa melhor para uma situação específica.
Pra alguns o argumento da pedra é interessante. Mas pra outros não vai fazer o menor sentido. Não porque ele não tenha lógica, mas porque ele não se encaixa no modo de pensar do interlocutor.
Se eu fosse usar apenas termos religiosos nas minhas respostas, tenho certeza que o Felipe ia ficar boladão comigo e até leria e responderia, mas com ourtos olhos. Afinal termos religiosos são bons argumentos pra mim, mas não pra ele.
Se eu tambem exclusivamente colocasse opiniões religiosas e colocasse o Felipe "contra a parede" (na minha hipotetica opinião) e ele dissesse: "Não quero discutir isso Patrick, sou ateu, pra mim isso não faz sentido." o bom argumento pra mim é de um ponto de vista subjetivo e na verdade não foi tão bom assim.
Eu gostaria que mais cristãos se tornassem criticos e abertos a reflexão, assim teriamos mais ganhos.

Felipe disse...

Concordo com o que vc falou sobre budistas, cristãos, muçulmanos, socialistas e etc.

Não sei se entendi tão bem o que vc quis dizer. A intenção foi mostrar que não existe essencialmente um bom argumento né....tudo depende de nossa subjetividade. Seguindo essa lógica, para vc, um argumento reliigoso seria super ótimo, enquanto pra mim não seria. E assim vai. De fato isso tem um quê de verdade. Mas acho que não devemos nos limitar. Isso é meio que normal. Quando ficamos restritos a um determinado campo acabamos condicionando nosso modo de pensar de acordo com aquele campo ali. Mas eu acho que no caso desse argumento da pedra, outra coisa está em jogo. É claro que quem propôs esse pensamento, não tem a intenção de provar que tal história possa ser repetitida na realidade. Mas, como mostrei no post, podemos usar isso para pensar situações mais lógicas de maneira geral, como o conceito do livre-arbítrio presente nas tradições religiosas Ocidentais hoje, assim como no Zoroastrismo, religião monoteísta da pérsia que influenciou enormemente o pensamento judaico. Eu não sou religioso, mas isso não me impede de pensar com os olhos da religião, e sim com os olhos da fé. Realmente é complicado. Eu até acho que não daria pra se fazer um blog onde idéias são expostas e discutidas, se eu falasse aqui de coisas que dependem de fé.

O que quero dizer é que acho perfeitamente compreensível para todos os tipos de pessoas, a lógica essencial que eu expus. O problema, e eu compreendo, é que para os religiosos um argumento desse não significa muita coisa, haja visto que a fé é justamente definida pelo fato de acreditarmos em algo não importando o que aconteça, por mais improvável (no sentido de não se poder comprovar mesmo) que seja. Eu tinha consciência disso....mas acho pelo menos um pouco até os religiosos mais ferrenhos se sentirão tocados não pela suposta (e inexistente) perfeição do meu ou de qualquer argumento, mas pelo simples fato de questionarmos o mundo, nossas crenças pessoas, nossas convicções, nossos métodos....enfim...o questionamento é saudável...acho que foi essa a proposta maior. Como se diz muito lá na faculdade: vamos problematizar! rs

João Rafael disse...

Patrick, gostei do seu começo portanto vou utilizá-lo!

Amigável e educadamente venho comentar esse questionamento.hahaha

Pois bem, pesquisando o significado de onipotente na internet, encontramos no dicionário michaelis da uol o seguinte significado:

onipotente
o.ni.po.ten.te
adj m+f (lat omnipotente) 1 Que tem poder ilimitado. 2 Todo-poderoso. sm Deus.

http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=onipotente

Considerando que alguém que tenha um poder ilimitado tem um poder infinito podemos trabalhar com a lógica, algo q é bem citado e utilizado no post.

Matematicamente o termo infinito não é algo q possa ser determinado, apenas (desculpe a redundância) imensamente imenso!rs
Algo que não pode ser medido, ao estudarmos isso somos obrigados a entrar na questão de limite em cálculo, oq nos mostra que existem diversos infinitos, infinitos esses que não podem ser comparados (são indeterminados), assim não se pode afirmar que algo ou alguém em sua onipotência cria algo que ele mesmo não pdoe carregar, o infinito por ser algo q não se mede nem se compara é algo q sempre se sobressai, se eleva, cresce. Ao determinar um ponto nesse infinito vc está apenas pegando um ponto de algo q não tem limite e só cresce. Me fiz entender com relação a isso???

Sobre Deus e nossa liberdade, nosso livre-arbítrio, não tenho muito a dizer...
Observo que Sto. Agostinho foi sim o primeiro a usar este termo, mas não a definição! Paulo em uma de suas cartas afirma que td pode, mas nem td lhe convém. Nessa sua afirmação podemos ver que sim, somos livres por td podermos, porém nem td nos é interessante!

Deus não nos dá uma "pedra" que se coloca como uma lei física onde Deus não tem força para interferir em nossas vidas, mas por Amor a nós Ele nos permite a liberdade, livres para optarmos por Ele ou não. Oq quero dizer é que se Ele quisesse se colocar como soberano e déspota Ele pode interferir em nossas escolhas, mas não o faz pq Ele não quer!!!

Observo ainda que Deus não se apresenta de uma forma única, cheia de leis. Cito novamente Paulo que diz em mais uma de suas cartas "a Lei mata, mas a caridade gera vida"

Grande abraço!

Felipe disse...

Po, cara, achei meio confuso o que vc disse sobre o infinito, mas no fim eu acho que captei a vossa mensagem! hehe

Eu cheguei a uma conclusão que até me inpirou a escrever outro post, que talvez até responda melhor o que eu acho sobre sua argumentação.

Resumidamente, pra não estragar a surpresa do próximo, eu acho que no fim, assuntos que utilizam argumentos vindos somente da racionalidade estão sujeitos à erros. Eu sei vários exemplos de situações clássicas em que a nossa lógica se mostra falha. Acho que essa é uma delas porque eu deium argumento lógico, mas vc deu outro perfeitamente lógico e que pode ser verdadeiro também. Porém, os dois não parecem anular um ao outro, entende? E logicamente, um dos dois argumentos estão corretos; é impossível que os dois estejam. Como resolver isso? (mostrarei no próximo post mais considerações sobre isso. Quando postar te aviso.)

Por isso que eu to a finzão de ler Crítica da Razão Pura, de Kant, porque esta foi justamente a obra que inalgurou formalmente uma das bases do pensamento científico que é a de que a razão sozinha, "pura", não é um método tão eficiente para se descobrir coisas; como os filósofos clássicos supunham. Precisamos alias a evidência a nossa racionalidade para aprimorar nossa visão da realidade.

João Rafael disse...

Então cara, pode parecer pretencioso, mas eu acho q a minha exemplificação do onipotente. Vc exemplificou e mt bem algo com um poder mt grande, mas não um poder ilimitado, como eu fiz...rsrsrs

Mas é isso ai, com certeza a razão por si só não pode ser considerada única verdade!

Felipe C. Novaes disse...

Não....rs Peraí.
"Mas é isso ai, com certeza a razão por si só não pode ser considerada única verdade! "

Eu entendo o que vc quis dizer com essa frase e creio que o que vc entendeu não foi o que eu quis dizer. haha

Provavelmente vc quis dizer que a razão não é a única verdade porque a verdade da fé pra vc é uma alternativa. rs Mas no sentido que eu usei, a razão é tão falhível quanto a fé na medida em que as duas não se baseiam em evidência. Na verdade, de acordo com essa lógica, a fé é ainda menos eficiente como ferramenta de descoberta de coisas porque nem com o apoio da lógica ela conta. Enfim....só pra deixar claro.

Mas po, o fato de um ser ter o poder ilimitado não exclui o paradoxo da onipotência. A sua lógica e a minha sevem para esse ser também. As duas continuam valendo, apesar de não dar muito bem pra refutar uma ou outra lógica relacionando as duas. Nesse caso, é só pensar assim: Um ser com poder infinito pode criar o que ele quiser. Então ele pode criar uma pedra que não pode ser movida nem por ele nem por ninguém. Mas a existência dessa pedra restringe o poder desse ser, logo ele não é onipotente. Entendeu? rs Mas enfim...o que vc disse também é válido....o que me levaria a repetir o que eu disse no comentário acima. hehe

João Rafael disse...

Eu não tava me referindo a fé não...rs

Felipe disse...

Mas também, provavelmente não tava se referindo ao método científico. rs

Iuri (Logan) disse...

oi pessoal,

eu fiz uma discussão sobre esse assunto neste post: http://ocioneticos.blogspot.com/2010/02/revisitando-o-paradoxo-da-onipotencia.html

Sobre a lógica dos diversos infinitos descritos acima por um leitor, acho que ainda utilizamos lógica clássica demais quando ainda temos os nossos sentidos e percepção RELATIVAMENTE rudimentares. Lógicas Paraconsistentes e Paracompletas utilizam paradoxos perfeitamente.

É o mesmo caso da história do terno do rei: Um rei chega em sua corte. Há duas bancadas que ficam em lados opostos, uma de frente para a outra. Na bancada do lado direito estão os conselheiros que representam os interesses da aristocracia. Na bancada do lado esquerdo, os conselheiros representantes da classe popular. Então o rei, parado entre as duas bancadas, de forma que fica de perfil para as duas, pergunta qual a cor do seu terno. Os aristocratas respondem que é azul, os populares dizem que é vermelha. As bancadas ficam discutindo e acusando-se de mentirosas por horas até que o rei começa a rir e diz que ambas estão certas. Se terno é metade azul e metade vermelha. A primeira metade estava virada para a bancada da direita, sendo visível somente para esta. A segunda metade estava virada para a bancada da esquerda, sendo visível somente para esta.

Outra coisa que precisamos considerar é que a lógica clássica prevê que paradoxos levam a uma negação de algo que se está se afirmando. É o método muito utilizado pela ciência para refutar teorias. Mas ela é monotônica, ou seja, se algo é verdade, sempre sempre será verdade. Mas, se teorizarmos, poderiamos dizer que se Deus não conseguir mover a pedra em determinado momento não significa que ele não poderá movê-la para todo o sempre, assim como se Deus poder mover a tal pedra, não significa que ele sempre poderá movê-la.

Bom, leia o texto do link. Acho que lá eu descrevo bem um cenário onde um mesmo ser onipotente em um momento consegue tomar o controle sobre algo que não tinha, e outro momento não.

Abraços
e que com você a Força esteja, hrum! xD

Felipe C. Novaes disse...

Li o texto do link que vc me enviou e achei muito interessante a analogia com informática. Mas ela supõe a mesma coisa que as pessoas que falaram de livre-arbítrio não como uma prova da impossibilidade da ação de Deus, mas sim como uma prova de que ele age quando quer. Acho que o fato de isso se constituir num paradoxo significa que não existe uma solução definitiva mesmo porque internamente parece que rstão certas, mas a lógica de outra suposição sempre torna irrelevante uma outra. Ou seja, todas as suposições estão certas e ao mesmo tempo erradas. Isso acho que marca a impossibilidade assima de tudo humana de conceber tais conceitos.

Ah, fique ligado nos próximos posts....vou postar falando sobre os comentários desse post aqui. Aguarde! Que a Força esteja com vc também! haha

Iuri (Logan) disse...

Cara, acho que nossos sentidos e nosso conhecimento ainda são muito limitados para conceber tais coisas.

As narrativas das religiões concebem divindades e seres supremos como onipotentes. Entretanto, não definem a onipotência. É a mesma situação de outros conceitos como inferno, céu e etc. Não existe conceitos bem definidos para estes na bíblia cristã, por exemplo. Atribui-se que são "eternos" e uma vez estando em um destes "lugares" é impossível sair de lá. Mas, em nenhum ponto do tal livro isto está descrito. Faz suposições e releituras de algumas passagens para tentar-se deduzir estes conceitos. Entretanto, suprimem de seus pensamentos outras passagens que simplesmente mostram o oposto. Quando indagados sobre estas passagens, fazem verdadeira ginástica que na grande maioria das vezes não convence quando levado a luz da razão.

Então, esses textos falam de um Deus onipotente, mas não definem exatamente o que é onipotência. Dai chega-se a definições como: "Capacidade de fazer qualquer coisa". Mas essa capacidade entra em contradição quando levada a nível absoluto. Então os que são detratores de tal teoria tentam utilizar desta falta de definição como uma amostra de contradição. Já os defensores religiosos e fundamentalistas se utilizam cegamente de fugas, baseando-se em interpretações de seus livros "sagrados" e conceitos pré-estabelecidos em tempos remotos quando dogmas ainda reinavam no pensamento humano. Dogmas do tipo: "está escrito e eu entendo isso, então não pode ser diferente disto."

Se pensarmos que o ser onipotente tem sua "realidade" externa a nosso "universo" (como o construtor do computador, o qual o computador é o nosso universo), não passamos de "realidade virtual" para ele. Desta forma, relativizando, poderíamos dizer que ele é onipotente em nosso "universo", mas quanto ao "universo" dele, ainda precisaríamos analisar, pensar, descobrir etc.

Sim, o levantamento de outra hipótese descarta a primeira. O problema é: quem foi que disse que a primeira era a única hipótese?

Religiões como Hinduísmo, Espiritismo, Budismo, Gnosticismo sempre trataram a nossa "realidade" como uma ilusão. A ilusão do universo da matéria que está compreendido pelo universo imaterial, e este, por sua vez, compreendido pelo universo da divindade (pois esta primeira deu origem as outras duas, precisa necessariamente estar fora de ambas).

Somente religiões mais materialistas como o "cristianismo clássico" tratam Deus como um ser material, pertencente a nosso universo. Algumas a vêem como um velhinho de barba branca o qual nos fez sua imagem e semelhança (físicas). Nestas, não há nem distinção entre material e imaterial, não havendo esse relativismo que eu falei. Então, usando a hipótese deles sobre onipotência, chega-se a esse paradoxo.

"Seres luminosos nós somos, não essa rude matéria" (Master Yoda).

Gostei do seu blog, vou me escrever no feed.

Abraços

Felipe C. Novaes disse...

"acho que nossos sentidos e nosso conhecimento ainda são muito limitados para conceber tais coisas."

Iuri, eu ousaria dizer que nunca teremos a percepção capaz de perceber essas supostas coisas além.

No caso da Bíblia, ela dá diferentes conceitos sobre "inferno", por exemplo, o que também podemos supor baseado em outras fontes relativas ao judaísmo. Os primeiros textos do Antigo Testamento, dos primeiros profetas, carrega uma noção de inferno bem diferente da que herdamos da Idade Média. Para os os judeus, todos que morriam desciam para o mundo dos mortos, o chamado sheol, algo muito parecidos com o Hades grego. Todos ia para esse mundo independentemente dos atos morais realizados em vida. Essa descida se dava literalmente pois para eles o mundo era plano, sendo o nosso mundo a fatia do meio entre o sheol e o mundo habitado por Javé. Nessa época os judeus acreditavam que as recompensas por uma vida moral viriam ainda em vida; mas vemos que o povo judaico estava sendo assolado por invasões estrangeiras, massacres e guerras, então como sustentar uma teologia que fala de recompensas boas durante a vida? Assim a visão foi mudando gradualmente para um mundo além vida que servia para dar essa recompensa antes dita que se daria em vida. Assim nasceu o protótipo do inferno como um lugar de danação e o mundo de Javé como o lugar onde essa tal recompensa seria dada. Essa visão passou a ganhar força com o movimento dos apocalipsistas, que escreviam esses livros que falavam de um fim dos tempos em que após a morte haveria o julgamento e cada homem, bom ou mal, seria encaixado em um local diferente de acordo com suas atitudes enquanto vivo. Com relação à "onipotência", pode-se afirmar a mesma coisa quanto a essa mudança de conceito no decorrer da própria Bíblia.

Valeu, companheiro. Abraço

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