sábado, 6 de novembro de 2010

Divulgação e Popularização de Pseudociências

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Krauss
Na edição especial de outubro da Scientific American, li a última coluna do físico Lawrence M. Krauss. Ele escreve para a revista há 1 ano, sobre assuntos relacionados à repercussão da ciência na sociedade. Sempre gostei muito e sempre admirei o entusiasmo com que ele fala sobre esses assuntos. Para encerrar sua sequência de artigos, Krauss resolveu abordar um tema polêmico que caiu nas graças do público leigo e de um monte de físicos, filósofos e astros, como Oprah, que visam o lucro acima de qualquer coisa. Esse assunto é a mecânica quântica e como ela vem sendo deturpada nos últimos anos pela indústria do esoterismo e da auto-ajuda (se bem que hoje as duas indústrias viraram quase uma só). E me senti inspirado para escrever sobre o assunto.

Já escrevi aqui sobre isso, relatando as peripécias do físico hippie chamado Amit Goswami. Livros como A Lei da Atração, O Segredo, O Tao da Física e “Quem somos nós?” já caíram na boca do povo e são os principais pilares dessa área de detratores. 




Chopra
Um dos primeiros esotéricos com o qual tive contato foi o físico teórico Fritjof Capra. Seu livro é o Tao da Física, em que traça paralelos entre a física moderna e o misticismo oriental. Quem dera que ele só fizesse paralelos descompromissados, como dá a entender a descrição do livro. Capra praticamente afirma que o misticismo oriental fala exatamente da mesma coisa que a física, hoje. É como se a ciência ocidental estivesse apenas redescobrindo de maneira desmistificada o que os indianos já sabiam há tempos atrás. Não vale nem a pena argumentar que não existe nenhuma prova científica disso, porque é óbvio que não existe. O mais triste é que nos sites onde encontramos o livro à venda, ele fica na seção de física; na lista de livros relacionados, encontram-se livros como Físico-Química e Introdução à Física Estática. Isso mostra que nem mesmo os organizadores dessa livrarias, virtuais ou não, sabem direito do que se trata livro; ou então, eles realmente acham que o livro se trata de física (o que é bem pior). 

Isso me fez lembrar um dia em que fui até a Livraria Saraiva. Resolvi ir até a seção de psicologia por mero desencargo de consciência porque, afinal, 80% das prateleiras estão infestadas de livros de auto-ajuda, e eles não me interessam. Mas eu já estava acostumado com isso. O pior foi quando vi um livro do autor L. Ron Hubbard, chamado Dianética. É um livro de auto-ajuda e, mais do que isso, é uma das “Bíblias” da cientologia. Pra quem não sabe, a cientologia é uma bizarra religião criada no século XX por esse mesmo autor. Ora, na seção de psicologia tinha um livro de religião! Como pode?

Voltando à pseudomecânica quântica, um dos seus papas é Deepak Chopra. Nas palavras do próprio Lawrence Krauss: 
Li inúmeros trabalhos desse autor falando sobre como a mecânica quântica fornece argumento para tudo, da existência de Deus à possibilidade de mudar o passado. Porém, nada do que já possa ter lido sugere que ele entenda o bastante de mecânica quântica para ser aprovado em um curso de graduação que venha a lecionar sobre o assunto.
Para finalizar, Krauss se manifesta em relação a O Segredo:
Esse best-seller, que semeou a indústria editorial da autoajuda, parece construído em parte na alegação de que a física quântica significa uma “lei de atração”, sugerindo que bons pensamentos farão boas coisas acontecerem. Mas não farão.
Hubbard
Enfim, acima de tudo eu quis mostrar, com esse post, o incrível fenômeno que consiste na enorme capacidade de penetração de idéias místicas e que deturpam a ciência, no senso comum. Por que idéias que são fruto de boa ciência, não são assimiladas e espalhadas dessa forma? Porém, em meio a essa confusão, ainda encontramos cientistas que tentam “descatequizar” as pessoas dessas idéias absurdas. 

Assista a esse rap que fala sobre pseudociências: (é bem legal)




6 comentários:

Carol disse...

" Por que idéias que são fruto de boa ciência, não são assimiladas e espalhadas dessa forma?"

Felipe, às vezes o modo como se apresenta algo causa mais impacto do que aquilo que está sendo apresentado.

Felipe C. Novaes disse...

haha De fato. Mas o que vc quis dizer exatamente? Que o modo como esse pessoal da pseudoquântica, por exemplo, tem um jeito mais sedutor de apresentar as informações?

Carol disse...

Isso mesmo! As pessoas querem respostas e que digam à elas o que fazer. Os livros de auto-ajuda só aumentam suas vendas, e quando os lemos só há ordens: seja isso, faça aquilo, viva aquilo outro.

A gente já vive numa sociedade que valoriza muito a Ciência, não é à toa que os pais tanto desejam que os filhos façam cursos de Exatas. Se um livro se diz embasado por essa Ciência na qual você confia, te diz o que fazer e ainda fala que você vai ser feliz, por que ir atrás das mesmas informações por fontes confiáveis? Lá elas não estão prometendo felicidade.

Felipe C. Novaes disse...

Existe uma "valorização" da ciência né. Entre aspas porque a sociedade habilita a ciência a responder certas perguntas, mas outras parece que as pessoas simplesmente inoram que existe um método científico pra responder certas questões e passam a se guiar por outras fontes de conhecimento. Um bom exemplo é um cara que tem uma alimentação saudável, baseado nas descobertas da ciência por exemplo, mas ele não passa um domingo sem conferir seu horóscopo.

Daí, podemos perceber o quanto que "gostar e confiar na ciência" não é sinônimo de saber o que é ciência. Esses livros mais famosos de auto-ajuda, que exploram física pseudoquântica e tal....po, é nítido para quem sbe o que é o método científico, que as conclusões desses autores são impossíveis de serem pautadas em algo científico. Eles abordam questões metafísicas e filosóficas. Isso não faz parte da ciência. Na verdade, trazer felicidade e sentido para a vida não é uma tarefa da ciência.

Carol disse...

Então, as pessoas valorizam o científico, mas não sabem exatamente o que é. Mas é fácil ouvir alguém dizer que algo está "cientificamente comprovado" quando quer reforçar o que está dizendo. É uma situação que vejo muito em casa mesmo. Quando contava para minha mãe sobre o que havia aprendido na aula de Desenvolvimento, por exemplo, ela não levava muito a sério. Quando chego contando o que aprendi na aula de Fisiologia, ela ouve com toda a atenção e raramente levanta alguma objeção. Não sabe que há um método científico, não sabe que uma pesquisa deve seguir critérios rigorosos para ter valor. Não apenas parece que as pessoas ignoram que há um método científico; elas realmente ignoram. Quando sabem, às vezes não é muita coisa. Aí a gente cai na boa, velha e urgente questão da Educação, mas não é o foco aqui.

Agora tente colocar na cabeça de quem lê "O Segredo" (que eu nunca li) que a Ciência não está aí para responder à todas as questões da vida dela e fazê-la feliz. A "desinformação" e as pseudociências vão continuar aí por muito tempo, Felipe. A Ciência tem que saber como se apresentar e tem que sair daquele mundinho acadêmico para se afirmar ao público como o que ela realmente é. Popularizar a Ciência de maneira séria é algo difícil e perigoso, mas já passou da hora de isto acontecer.

Felipe disse...

Aqui em casa também é assim...rs Na verdade acho que em geral as pessoas são assim com relação ao "cientificamente comprovado". Pegue como exemplo as pessoas que tem bastante fé. Elas são capazes de falar esse cientificamente comprovado pra questões que, para elas, não tem a ver com a fé. Mas, ao mesmo tempo, por exemplo, se vc afirmar que a ciência mostra que certas coisas que estão na Bíblia são impossíveveis de terem acontecido, esses religiosos vão se mostrar extremamente hostis; podem até dizer que "a ciência não é parâmetro de o que existe ou não". Mas, imagine que um dia "a ciência", comprove que Jesus realmente foi filho de Deus. Vc acha que algum religioso ignorará tal prova só porque foi algo descoberto pela ciência? Não po...eles vão lançar mão da ciência como selo de qualidade, como sempre fazem se for conveniente.(falando nisso, vc leu o post sobre Jesus?)

Sobre popularizar a ci~encia....bom, concordo que isso é necessário! E temos até ótimos estudiosos que trabalham muito bem nisso, como Rihard Dawkins, Stephen Hawking, Marcelo Gleiser, e o falecido carl Sagan. mas existem dois problemas aí: o primeiro é que por mais que o cara aborde um assunto tendo como intenção a popularização do assunto...muitas pessoas não vão se interessar sobre o assunto. Segundo, mesmo que seja exposto muito bem o assunto, algumas pessoas ainda não entenderão! Por exemplo....existem vários documentários interessantíssimos sobre Buracos Negros...mas por mais popular que seja a abordagem, pra pessoa entender ela tem qe ter alguns conhecimentos sobre assuntos básicos. Enfim....existe muito conhecimento acumulado...então, para entender o que é um buraco negro, por exemplo, temos que antes conhecer o básico sobre Relatividade Geral, partículas e antipartículas, radiação e etc. É complicado...rs

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