sábado, 1 de outubro de 2011

A Bondade Humana: Herança Ancestral

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Fonte: Esse texto foi publicado por mim na Revista Livre Pensamento Volume 1. Fique atento às próximas edições!

Por muito tempo o ser humano foi tido como o único animal capaz de desenvolver a moralidade. Até hoje algumas pessoas pensam no que há de mais humano do que a própria moralidade, ou a caridade, a preocupação com o próximo sem que seja exigido algo em troca. Alguns usam esse fato até para pregarem contra a Teoria da Evolução, por acharem que a evolução só consegue gerar indivíduos egoístas e competitivos. Bom, parece que nossos parentes mais próximos, chimpanzés e bonobos, estão nos mostrando que a bondade humana, tão apregoada pelas religiões, tem raízes mais profundas do que imaginávamos.



Lolita, uma bonobo muito simpática, não encontrava o pesquisador Franz de Waal há 11 anos. Quando ele foi visitá-la numa colônia em um zoológico, ela logo foi correndo em direção a ele emitindo gritinhos e outros grunhidos que ela não costuma exibir para estranhos. O primatólogo descobriu que ela estava grávida e logo ficou ansioso para ver seu filhotinho. E lá estava ela, sentada com uma bola de pelo (seu filhote) no colo. Franz apontou para seu ventre e logo depois a primata pegou o filhote pelas mãos e girou-o de forma que sua face ficasse visível para o observador humano. O pequeno macaquinho começou a grunhir e fazer caretas  porque os filhotes odeiam se separar da barriga quente de suas mães. 


Esse é um belo exemplo da inteligência acurada desses animais. Ou, ainda mais que isso, é um indício de que eles tem o que alguns pesquisadores sustentam ser um atributo unicamente humano: a empatia. Como Lolita soube que o gesto de apontar para seu ventre sugeria que o primatólogo queria ver seu filhote? E mais: como ela sabia que “mostrar” seu filhote significava exibir seu rosto? A empatia pode ser definida como a capacidade de reconhecer a intenção dos outros, é a chamada teoria da mente. Mas essa habilidade também implica em sentirmos o que os outros estão sentindo também. Isso pode ser notado nos exemplos mais cotidianos possíveis. Quem nunca ficou tenso vendo um filme de terror em que percebemos a tensão dos personagens do filme e acabamos ficando no mesmo estado? Quem nunca se emocionou (mesmo sem derramar lágrimas) assistindo a um filme de drama? Algumas experiências mostram a empatia aplicada também à ações humanas. Em um desses, o pesquisador, na frente de um bebê, tenta colocar uma argola em seu dedo da mão, mas quando a argola chega perto do dedo, ele deixa que ela caia e reinicia o processo. Depois de um tempo repetindo isso, ele deixa que o bebê pegue a argola. O que ele faz? Pega e coloca no dedo do pesquisador, mostrando que mesmo um bebê já consegue perceber a intenção dos outros. 


Outro belo exemplo é o bonobo Kidogo, que é um doente cardíaco e por isso é um macho crescido, porém, fraco, inseguro e sem energia. Ao ser transferido para a colônia do Zoológico de Milwaukee, kidogo ficou confuso com a mudança e não reconhecia os comandos dos tratadores, não sabiam para onde tinha que ir. Depois de um tempo, outros bonobos interferiram. Eles pegavam Kidogo pela mão e o conduziam até os locais indicados. Quando ele se perdia, gritava aflito e outros vinham socorrê-lo. 


Aparentemente, diriam alguns, esses relatos revelariam contradições na Teoria da Evolução porque agir dessa maneira solidária não tratia nenhum benefício em termos da sobrevivência do mais apto. Há duas teorias que explicam esse comportamento: a primeira diz que a empatia, que é a responsável pela solidariedade e cooperação, surgiu como um mecanismo que nos permite ajudar os seres aparentados geneticamente conosco, assim, preservando também os nossos genes contidos em outros indivíduos da família. A segunda teoria pode ser traduzido como simplesmente “uma mão lava a outra”. Isto é, ajudamos aquele cara ali agora para que no futuro possamos ser ajudados por ele. 


Essas duas teorias podem ser verdadeiras, mas elas nos falam dos motivos evolutivos que fizeram essas características se conservarem nos animais de hoje, e não dos motivos presentes na mente de cada um (mesmo que seja um animal não-humano) para que esses atos sejam realizados. Precisamos de motivos que ajam no aqui e agora para explicar isso. 


Certamente, os bonobos que ajudaram Kidogo não estavam interessados em favores futuros de um animal enfraquecido e necessitado de cuidados como ele. Também não imagino o motivo pelo qual uma fêmea de gorila pegou o menino que tinha caído dentro de sua jaula no zoológico, colocou-o no colo, como se estivesse embalando-o, e depois, gentil e cuidadosamente entregou-o para os tratadores que foram resgatá-lo (ela agiu de maneira bem parecida com os bonobos quando algum filhote cai num rio e é resgatado). Veja o caso que ocorreu em 2004, na cidade de Roseville, Califórnia. Um labrador preto pulou na frente de um menino, seu dono, e levou uma piaca de cascavel em seu lugar. O que estimularia ali, naquele momento, o cão a fazer isso? A decidir arriscar a sua vida pela de seu dono? Com certeza não foi a expectativa de uma futura retribuição de favores. É como, também, no exemplo do século XX, dado pela psicólogo russa Nadia Ladygina-Kahts, que criava Yoni, um jovem chimpanzé. Ele era indisciplinado, sempre fazia questão de desobedecer Nadia. Um dia, ele foi para cima do telhado e não saía de lá por nada. Então a psicóloga apelou:

Se finjo chorar, fechando os olhos e gemendo, Yoni imediatamente pára a brincadeira ou qualquer outra atividade e vem correndo. Chega todo agitado e preocupado dos lugares mais remotos da casa, como o telhado ou o teto de sua jaula, de onde eu não consegui trá-lo apesar de meus persistentes chamados e súplicas. Ele corre à minha volta, como se procurasse quem me fez mal; olha meu rosto, pega minha bochecha com carinho na palma da mão, toca suavemente meu rosto com um dedo, como se tentasse entender o que está acontecendo.

É muito interessante percebermos que até as ações humanas mais nobres parecem ter algum tipo de equivalência em animais não-humanos, revelando a ancestralidade dessas potencialidades. Dessa forma, podemos até mesmo arranjar meios contundentes de questionar a clássica idéia do senso comum, de que foi a religião que sempre colocou juízo na humanidade. Quando somos estimulados a fazer o bem ao próximo sem exigir algo em troca, estamos fazendo nada mais do que fazendo valer algo que já faz parte do repertório de habilidades humanas e que se não fosse a religião, com certeza iríamos arrumar outros motivos para justificar isso.