sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A controvérsia do cumprimento no aikido: diferenças entre Ocidente e Oriente

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O aikido, como arte marcial de tradição japonesa, é repleto de vários cumprimentos. Nos curvamos diante de nosso sensei, diante de nossos colegas mais graduados e dos menos graduados também, e, claro, diante da foto de Ueshiba (O Sensei). Pode parecer mera formalidade tola, mas esse é um costume de precioso valor simbólico e prático. Mas, muitas vezes, enfrentamos os problemas típicos de transportar uma tradição de outra cultura, para a nossa, a ocidental. Nesse sentido, algumas pessoas se sentem incomodadas, principalmente com a reverência a O Sensei. 

Parte desse incômodo vem do fato de que no dia-a-dia não costumamos ser tão formais. Somos brasileiros, e como tais, temos uma postura relaxada e informal no  cotidiano. Um “oi” e um aperto de mão parecem ser suficientes. Muita formalidade soa como algo artificial demais. Quase robótico e desmedido. 

A coisa fica ainda mais complicada quando pensamos em nível de tradição cultural. O Ocidente, dominado pela influência judaico-cristã, assimilou a ideia da adoração de imagens. Protestantes acusam católicos de adorá-las, estes, por sua vez, dizem que tudo trata-se de engano. 

Mitologia Oriental e Ocidental

A ideia é que Deus é um Mistério que transcende o nosso mundo profano, marcado peladualidade (bem e mal, bonito e feio, homem e mulher, tudo e nada, sagrado e profano e etc), portanto, na visão dos judeus, originalmente, Ele não precisaria ser representado, porque isso poderia justamente desvirtuar essa ideia de falar de algo inconcebível para nós. Os protestantes parecem seguir esse tipo de tradição. Assim, Deus não poderia ser representado, então, usar uma imagem é adorar somente ela, não a Deus. 


Os católicos aventam que a Bíblia realmente fala de adoração de imagens, mas o que ela quer dizer é que não se deve adorar elementos profanos como se fossem sagrados. Um exemplo disso seria a avareza. Ser pão-duro é nada mais que adorar o dinheiro. Sendo cristão ou não, acreditando em Deus ou não, é óbvio que uma postura dessas pode não trazer prejuízos em curto prazo, mas traz a longo, certamente. Nesse sentido, católicos dizem estar apenas simbolizando algo, não adorando. 

Nesse sentido, imagino que seja mais problemático para protestantes do que para católicos, realizar o cumprimento à foto de Ueshiba no início e término da aula. Entretanto, é preciso ter em mente que o contexto onde esse costume surgiu não é o mesmo em que essa problemática cristã surgiu. Aliás, no Oriente o conceito de Deus não é nem mesmo igual ao nosso, para começo de conversa. 

A mitologia ocidental em geral, não importa o mito ou a religião específica em questão, baseia-se no mito primordial de que havia uma divindade que criou os seres e as coisas. A mitologia oriental postula essencialmente que havia um Isto no início, e que Ele se dividiu, e cada uma de suas partes deu origem aos seres e às coisas. 

Além de um mero detalhe

Parece mero detalhe, mas essas diferentes concepções da mesma coisa fundamentaram o costume oriental de cumprimentos excessivos. Cumprimentar a cada ser, ser gentil e sutil com cada coisa é uma atitude de louvar Deus, afinal, não existiria diferença entre algo sagrado ou profano, tudo seria Deus. 


Pois bem, por esse ângulo, cumprimentar os companheiros de treino, sensei e O Sensei faz sentido. Entretanto, para além dessa base mitológica que está na origem dessa cultura, cumprimentamos por respeito. Respeito ao sensei que nos treina com afinco e nos aperfeiçoa; aos colegas que estão conosco nessa empreitada e nos ajudam a lapidar nosso caráter e nossa técnica; e a Ueshiba, que criou o aikido, um dos Caminhos para a perícia espiritual e física.