Há momentos na vida em que devemos recusar um desafio, geralmente quando o resultado é demasiadamente óbvio por já termos experienciado coisas parecidas antes e visto que não foi proveitoso para nós. Isso vale para lugares e mesmo assuntos. Em relação ao segundo, posso dizer que comecei a evitar leituras psicanalíticas assim que comecei a ver o tema na faculdade (sim, eu estudo psicologia). Me pareceu por demais não apenas não-científico (o que não é um problema em si), mas principalmente pseudocientífico (apesar de Freud ter tido intenções bem positivistas e mecanicistas ao começar a desenvolver a área), o que necessariamente é algo que já de primeira deveria desqualificar determinada empreitada.
O mesmo
serviria para os demais psicanalistas que romperam com a escola freudiana, como
Jung. Em relação a
este, sobre o qual nunca tinha lido nada nem na faculdade nem fora dela, minhas
expectativas só pioraram, graças à disciplina de Metodologia Científica. Era
ministrada por uma professora simpática, mas que insistia em não dar
metodologia científica – ou melhor, teimava em dar o que ela entendia como tal.
Após passar
batida por Karl Popper,
proeminente filósofo da ciência, começou a dizer que Jung foi um cientista que
comprovou que a mente era energia, que essa energia era a mesma que Einstein falava em sua
célebre fórmula E=M.c2, que existia memória de vidas passadas, que
poderíamos “regredir mentalmente” até a vida intrauterina, que a Mecânica
Quântica explicava a psicologia e vice-versa etc.
Não perderei
tempo desnudando e “desoterizando” cada uma dessas alegações obscurantistas,
pois gostaria apenas de anunciar que resolvi entender por mim mesmo o que diabos
Jung fez de tão importante – e também de verificar alegações surpreendentes,
segundo as quais Jung teria comprovado a existência da alma e de uma memória
elementar talhada no próprio universo, à qual a nossa memória “se liga”
(inconsciente coletivo). Comprei O Homem
e Seus Símbolos, livro que sintetiza para o público em geral todo o
trabalho de Jung. Assim, resolvi fazer algumas anotações e divulgar aqui em meu
blog o que venho achando da coisa.
Adentrando no trabalho de Jung
Logo nas
primeiras páginas, encontramos uma introdução escrita por John Freeman (que entrevistou Jung certa
vez), em que ele fala sobre a proposta de Inconsciente criada por Jung. Ele
bebe bastante da fonte freudiana para pensar esse conceito (por isso o “I”
maniúsculo), dizendo basicamente que existiria o consciente e o Inconsciente,
em que cada um desses funcionaria como dois indivíduos dentro de nós.
Para Freud,
o Inconsciente era um mero repositório de experiencias e pensamentos
perturbadores demais para serem mentidos ali ativos pelo consciente; portanto a
outra instância desconhecida seria uma lixeira sombria, cheia de coisas
obscuras que de vez em quando eram regurgitadas para fora dali através de
sonhos, atos falhos e lapsos.
Para Jung, o
Inconsciente não funcionava apenas como lixeira, mas também como uma instância
psíquica (não acho nada mais obscuro do que esses termos...aff...) estruturada
a partir de arquétipos (isso eu vou explicar melhor em outro texto). Sendo
assim, sonhos poderiam não só revelar material censurado, mas também avisos
importantes e benéficos para o consciente.
É essa
concepção dos sonhos que me interessa aqui. Em O Homem e Seus Símbolos, Jung nos conta que foi um sonho que fez
com que ele tomasse a decisão de aceitar o projeto que daria origem a esse
livro. Uma noite ele teria sonhado que falava para uma platéia de não-médicos e
que todos entendiam perfeitamente seu trabalho. Ele interpretou como um aviso
para que embarcasse de vez no novo livro dirigido ao público leigo.
O leitor
familiarizado com mitologia, percebe rapidamente que a psicologia junguiana
preserva muito deste campo. Jung foi intensamente influenciado pelo seu
conhecimento da área. Tanto é que os sonhos parecem exercer o mesmo papel que
as antigas profecias exerciam no passado.
Sempre que
um Imperador estava indeciso sobre invadir um novo território, ou se queria
saber sobre se teria filhos saudáveis e homens que dariam continuidade ao seu
legado, consultavam homens sábios que se diziam carregar mensagens dos deuses.
O Oráculo de
Delfos, na Grécia, talvez seja o exemplo mais conhecido, mas essa prática
existia por todo o mundo, seja na figura de oráculos, pajés ou xamãs.
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Oráculo de Delfos |
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Em Matrix, a personagem Oráculo dá conselhos enigmáticos e indiretos a Neo |
O que eu achei disso?
Inicialmente,
posso dizer que isso nem de longe é uma teoria científica dos sonhos. Então não
sei por que os junguianos insistem tanto em falar que as teorias de Jung são científicas.
No entanto, não existe nada pejorativo em não ser científico, pois existem
perguntas que a ciência não está realmente habilitada a responder – tudo bem,
algumas perguntas podem também ser pseudoquestões. O maior problema é quando
insiste-se em tornar ciência aquilo que não é. Então, partamos desta
confortável premissa: a psicologia de
Jung (psicologia analítica, como é chamada) não é uma psicologia científica,
mas também não é pseudocientífica, a menos que alguém insista que ela é
científica sem ser.
Se somarmos
a esse pressuposto a semelhança da técnica e conceitos da psicologia analítica
às práticas proféticas ancestrais, então teremos uma bela tentativa atual de
reprodução destas. E podemos até mesmo usar isso para explicar por qual motivo
essas práticas interpretativas eram tão difundidas no passado por culturas que
não poderiam aprender isso através de influências umas sobre as outras, tanto
quanto para entendermos como esse fenômeno se manifesta ainda hoje através de
cartomantes, horóscopo, búzios e terapias (ditas científicas) de interpretação
de sonhos (!).
No meu ponto
de vista (e aqui insiro essa expressão clichê não para me esquivar de qualquer
crítica que façam à minha opinião, mas para deixar claro que eu não li isso em
lugar algum, estou aqui apenas escrevendo meus palpites mesmo), nossa natureza
humana nos predispõe a achar sentido e coerência onde pode não haver.
Enxergamos faces em Marte, vemos elefantinhos em nuvens e enxergamos mensagens
pessoais em sonhos. Todos esses fenômenos podem ter em sua natureza o mesmo processo
fundamental – processos esses que também nos beneficiam quando conseguimos
enxergar padrões que realmente existem.
No entanto,
essa “constatação” não me torna tão certo sobre a necessidade de continuarmos
usando práticas interpretativas. No exemplo que usei relatado pelo próprio
Jung, seu sonho foi usado por ele como incentivo para se engajar numa tarefa
que no fim das contas foi positiva, assim como em Matrix, Morpheus, Trinity e
Neo pareceram ter suas decisões influenciadas pelo que Oráculo tinha
profetizado. Pode ser que I Ching, quiromancia e profecias sejam meios válidos
não para se prever o futuro ou para que uma instância misteriosa de nós mesmos
se comunique conosco, mas para oferecer caminhos a alguém que esteja com
dúvidas por onde seguir. Talvez essa indicação abstrata sirva para refletir e
se pensar bem no que se pode e no que ser deve realmente fazer.
E, claro,
isso só funciona de verdade porque a pessoa acredita fielmente que aquilo foi
uma mensagem mandada por alguém capaz de dar uma mensagem útil – seja uma
divindade, um homem santo, um sonho mandado pelo inconsciente etc. Aquilo tem
que ser provido de determinada autoridade para ‘funcionar’.
Xúlia · 574 semanas atrás
Felipe C Novaes 57p · 574 semanas atrás
Bom, acho que os junguianos responderiam que apesar de o indivíduo ser aquele que detém a última palavra, digamos assim, sobre o significado de seu sonho, cabe ao analista ajudar na interpretação. Ou melhor, cabe a ele guiar o indivíduo, mais ou menos como se vc estivesse guiando um cego, talvez: vc pode não saber para onde o cego quer ir, mas vc vai poder guiá-lo fazendo com que ele não entre em ruas sem saída, não atravesse na frente dos carros e etc.
Isso não é a mesma coisa que o cliente simplesmente anarquicamente querer entender o que ele bem entender do sonho. Tudo isso deve ser feito levando em conta ainda assim o bom senso de ambos os envolvidos. Ah, e como para os junguianos o sonho constantemente guarda as mesmas estruturas que os mitos, o analista está em boa posição de guia exatamente por conhecer essas estruturas.
Porém, o que eu quis dizer, mais em relação à minha conclusão pessoal sobre o tema, é que na maioria das vezes qualquer tipo de mensagem enigmática talvez seja mais importante para nos fazer pensar sobre algo (somos produzidos também por essas mensagens...não necessariamente ela se destina a descrever algo que já está dado), nosso caminho, nossas decisões, sobre nós mesmos, do que para oferecer algum caminho já esperando para ser descoberto.
Quando vc ver Matrix talvez isso fique mais claro.