domingo, 23 de maio de 2010

Literalmente Autistas

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Há muito tempo tentam encontrar as causas dos distúrbios do espectro autista. Sabemos que várias estruturas cerebrais e do encéfalo estão prejudicadas nesses casos. Uma dessas áreas prejudicadas corresponde a uma parte específica do córtex pré-frontal (área localizada mais ou menos na altura da testa) onde se localizam os neurônios-espelho. Essa células estão intimamente relacionadas com o comportamento social. Quando nós vemos alguém sofrendo, inevitavelmente nós nos compadecemos da dor alheia. Isso se chama empatia. A capacidade de sentir em nós mesmos o que acontece com o semelhante. Temos essa capacidade graças a essas células. E isso vale para outras situações menos óbvias. Quando nós vemos uma pessoa fazendo um gesto simples como acenar com as mãos, nosso cérebro se ativa na regiões responsáveis pelo movimento, como se nós estivéssemos fazendo isso também. Nas pesquisas com autistas, ficou claro que os autistas eram desprovidos dessas capacidades empáticas.


O eletro encefalograma é um exame clássico para finalidades neurológicas que foi usado na pesquisa com os autistas. Ele atua detectando as ondas mu no nosso cérebro. O ruim do exame é que quando nós realizamos qualquer ato voluntário, como mover as mãos, o exame tem que ser reiniciado por ocorrer a supressão das ondas mu. Mas, como vimos acima, quando vemos alguém executar algum movimento, graças aos neurônios-espelho, nosso cérebro ativa as estruturas necessárias para que realizássemos o mesmo movimento, então, para o eletro encefalograma, o simples fato de observarmos o vídeo de uma pessoa realizando um gesto já seria o suficiente para ocorrer a supressão das ondas. A idéia era fazer os autistas realizarem movimentos quaisquer e detectar se ocorreria a supressão das ondas mu. O próximo passo seria mostrar vídeos de pessoas se movendo, fazendo gestos, e ver como o cérebro deles se comportaria. Resultado: as ondas foram suprimidas normalmente quando movimentos eram realizados, mas quando eram mostrados vídeos de pessoas fazendo os mesmos movimentos, o cérebro deles não era capaz de espelhar o comportamento, logo, no segundo experimento, as ondas mu continuavam sendo emitidas normalmente. Isso explica uma série de comportamentos e capacidades ausentes nos autistas. Além da empatia, outro exemplo é o uso e entendimento de metáforas e de provérbios. Os autistas costumam interpretar literalmente as metáforas. Li numa edição especial da Mente & Cérebro onde dizia que um pesquisador ao pedir, por exemplo, para um dos pacientes “baixar a bola”, ele pegou uma bola e colocou no chão. O autista savant mais famoso do mundo, Kim Peek como conta seu pai, uma vez, em um restaurante seu pai pediu que ele falasse mais baixo, então Kim abaixou a cabeça em direção à mesa mas continuou falando com o mesmo volume que antes.

Imagem do teste bouba-kiki
O entendimento de metáforas exige a capacidade de extrair um denominador comum de realidades aparentemente desconexas. Um exemplo disso é o efeito bouba-kiki,descoberto há mais de 60 anos por Wolfang Kohler, um dos fundadores da escola Gestalt de psicologia.
No teste desenvolvido por Kohler, são apresentados dois desenhos [ver imagem acima], como mostra a figura. É pedido ao voluntário que nomeie uma figura de bouba e a outra de kiki. 98% das pessoas nomeiam a figura arredondada de bouba e a angulosa de kiki, qualquer que seja o idioma nativo. Isso significa que o cérebro é capaz de estabelecer conexões abstratas entre sons e formas. Os pesquisadores acham que essas inter-relações por analogia devem ser similares ao mecanismo mental da criação da metáfora, e delas por certo participam circuitos neurais aparentados com o sistema dos neurônios-espelho. Crianças autistas submetidas ao teste invariavelmente atribuem nome errado às figuras.

Que parte do nosso órgão do pensamento atua nessa habilidade?
O giro do cíngulo cingular, localizado no cruzamento dos centros responsáveis pela audição, visão e tato. Foram identificados também neurônios-espelho nessa região. Indivíduos sem autismo, porém com lesão nessa área, fora estudados e a maioria falhava no teste bouba-kiki e tinha dificuldade de entender metáforas.
Kim Peek

Para quem ainda não pescou a possível conclusão dessas descobertas, aí vai o que os pesquisadores acham: os resultados apontam que a faculdade de fazer analogias pode ter surgido para ajudar os primatas na execução de tarefas motoras complexas como agarrar galhos de árvore (que exige assimilação imediata e simultânea de informações visuais, auditivas e táteis) e evoluído como aptidão de criar metáforas.


3 comentários:

Raiza Calheiros disse...

Quase me identifiquei com os autistas. "Capacidade de não entender metáforas", rs.

Anônimo disse...

Que sacoo zzzzzzzzzzzzzzzzzzz...

Felipe disse...

haha Esperava que pudesse ser mais específico...

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