sábado, 2 de outubro de 2010

A Sexualidade e o Absurdo Malafaia

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Em favor da família e preservação da espécie humana. Deus fez macho e fêmea. - Pastor Silas Malafaia
O pastor pentecostal pop Silas Malafaia é conhecido por sua radicalidade (pra não citar sua conta bancária). No dia 27 de setembro estreou mais uma de suas peripécias chamativas: a inauguração de 600 outdoors pelo Rio de Janeiro, com os dizeres acima. Seu objetivo seria “defender os princípios cristãos e valorizar a família.”. 


A opinião contida por trás dessa frase já não é novidade pra ninguém, mas o que realmente gerou impacto, pelo menos em mim, foi a proporção que essas convicções tomaram, juntamente com o monte de incoerências internas que isso despertou. Eu, como ateu, não acredito nem um pouco na alegação de que Deus fez a espécie humana, e muito menos em que Deus determinou especificamente macho e fêmea. Mas acho que o que eu acho ou deixo de achar não é o importante aqui até porque em outros posts aqui deixo minha posição bem clara. Mas, tomando como referencial o próprio livro religioso que os cristãos usam, ou mesmo as evidências que o mundo natural nos dá, será que esse argumento divino se sustenta ao menos à nível interno? 
 
A homossexualidade sempre foi um fenômeno presente. Na própria Bíblia vemos citações a essa prática, assim como na Índia, cultura muito mais antiga que a judaico-cristã, onde homossexuais eram vistos como seres especiais por serem considerados únicos, ou seja, um ser ao mesmo tempo feminino e masculino. Na Grécia e Roma Antigas também não existia problema. Na verdade, o fenômeno era tão comum que eles nem faziam distinções entre hetero e homossexualidade. Posteriormente, no século IV d.C., com a criação da Igreja Católica, que a homossexualidade passou a ser vista de maneira totalmente marginalizada. É bem verdade que não era raro encontrar culturas diversas que reprimiam tal comportamento, fazendo com que os gays tivessem que camuflar sua condição. 

Indo diretamente à Bíblia, podemos encontrar essas passagens de conteúdo anti-gay:
Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isso é toevah (também no grego bdelygma, ambos significam "impureza" ou "ofensa ritual"). (Levítico 18:22)
Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometerão "toevah". (Levítico 20:13)
Deixada clara a obviedade de sua constante presença na história humana, passarei para uma esfera que sugere que a investida em seres do mesmo sexo não está presente só em nossa espécie. 

Ao contrário do que muita gente preconceituosa pensa, o comportamento homossexual não é uma doença. Tanto é que o termo “homossexualismo” caiu em desuso, agora o termo usado é “homossexualidade”. Segundo o pesquisador Bruce Bagemihl, esse traço é algo até bastante comum na natureza. Seu levantamento mostrou que nada menos que 450 tipos de mamíferos e aves se exibem para indivíduos do mesmo sexo, criam filhotes juntos e tem relações sexuais. E tal coisa não se restringe só a essas espécies (mais de 1500 outras espécies, incluindo insetos). Alguns desses animais se comportam dessa forma predominantemente em cativeiro, onde muitas vezes a oferta de parceiros do sexo oposto é escassa. O sexo funcionaria como uma forma de alívio do estresse, por exemplo. Na natureza, os bonobos, primatas parecidos com pequenos chimpanzés, usam o sexo como moeda de troca por favores de outra natureza, ou como forma de se desculpar; até mesmo para puxar o saco do macho ou fêmea alfa do grupo. E cópula entre indivíduos do mesmo sexo é tão comum quanto com sexos diferentes. Essas práticas justificam o fato de esses primatas serem chamados de pansexuais. Uma das características mais curiosas é o fato de eles não praticarem o coito somente em período fértil, como a maioria dos animais; nesse sentido eles são inegavelmente parecidos conosco.
Existe ainda uma dúvida no ar: aparentemente as práticas homossexuais jogariam contra o jogo da evolução, que é regida pelo princípio da propagação dos genes através da reprodução. Como explicar, à luz da evolução, um comportamento que age pela via contrária?
Alguns pesquisadores acreditam na hipótese de que a homossexualidade foi selecionada por permitir que animais sem um parceiro e com filhotes, tenham ajuda para levar a cria adiante. Um exemplo que se encaixa nessa explicação é o caso dos pingüins Roy e Silo, que se encontraram num tanque de um zoológico no Central Park em 1998. Quando um viu o outro, o início da exibição foi instantâneo. Logo depois eles acasalaram. Um ovo viria a seguir, se os dois não fossem machos. Comovido com o caso, o zelador do zoo decidiu pegar um dos ovos de um outro tanque de pinguis e dá-lo para Roy e Silo, que passaram a cuidar do filhote como um casal normal. Quando o filhote nasceu, os dois também cumpriam os papeis normais de “pais”. 

Dentre tantas explicações e casos que mostram o quão comum esses episódios são, ainda resta a dúvida sobre o motivo pelo qual alguém se torna homossexual. O comportamento sexual humano é muito mais complexo que o dos outros animais por causa das influências culturais. Mas ainda sim é evidente que existe algum componente biológico agindo dentre um caldeirão de outros fatores. Cientistas cogitam a hipótese da causa hormonal. Durante a gravidez, por volta da oitava semana de gestação, o feto começa a sofrer a ação de hormônios sexuais. Esses pesquisadores acham que uma dosagem menor ou maior que o normal poderia modificar áreas influenciadas por essas substâncias, relacionadas à nossa sexualidade, no cérebro. Ou seja, um feto com órgão sexual masculino, caso recebesse uma dose típica de fetos femininos, desenvolveria a atração sexual tipicamente feminina. E vice-versa. Algumas pesquisas relacionam esses casos com a exposição da mãe a fortes estímulos estressantes.

Assim, vimos que a quantidade de informação que temos sobre esse tema, ainda que algumas sejam inconclusivas e que não tenhamos ainda dados suficientes, torna essas explicações simplistas relacionadas à criação divina, coisas disparatadas que só servem para preencher os discursos verborrágicos de radicais preconceituosos. Malafaia é um dos protestantes que fala em liberdade religiosa e que teme que alguns projetos de lei que colocam isso em risco sejam aprovados, mas ele (nem quem acredita nas mesmas coisas que ele) parece não aplicar essa lógica à outros tipos de liberdade. Se bem que, com esses dados, podemos entender que a nossa sexualidade é, pelo menos parcialmente, definida por nossa biologia; assim, qualquer um que fale em ser contra ou a favor está sendo tão incoerente quanto alguém seria se dissesse que é à favor ou contra o medo, o choro, o soluço. É inútil lutar contra aspectos essenciais da natureza humana.

Para saber mais, clique aqui e aqui.


10 comentários:

Carol Venturotti disse...

É por isso que eu tenho ódio do ser humano. É o único capaz de 'pensar' mas também o único capaz de utilizar esse raciocínio para o mal. Seja manipulando pessoas, dando falsos testemunhos ou criticando coisas que nem é capaz de falar sobre.

Felipe disse...

Realmente! Infelizmente acho que isso é uma consequência inevitável de nossa natureza. Poucas pessoas tem o autocontrole, a sabedoria e a disciplina para usar o conhecimento e a nossa capacidadade intelectual única no reino animal, para o bem e somente o bem. Talvez, o bem supremo seja impraticável para nós. Mas isso não é justificativa para desistirmos de tentar sempre o melhor, ainda que cientes de nossas dificuldades.

Jose Roberto disse...

Esses que dizem falar em nome de Deus e que usam a biblia como um livro inspirado por um deus onisciente são tão estúpidos que não conseguem perceber a própria estupidez. Esse tal Mala fala besteira, não estudou biblia como a maioria que a usa.Decora alguns vs que lhe interessam para manipular a massa ignara que não sabem ler e pensar por si mesmos.Estudo o livro há 22 anos e descobri muita barbaridade nesses homens de deus.São tão incoerentes entre eles mesmos que Deus tem vergonha deles.A respeito desse assunto leiam Mateus 19-10 a 12.

Anônimo disse...

Hossexualidade independe de religião, n sei pq as pessoas assimilam tanto religiosidade e preconceito. Correto ou n, algo diferente acontece com esses seres, se fosse tão simples essa questão não viria desencadeando a milhões de anos tanto espanto... até hj!
A pesquisa de Bruce Bagemihl é contraditória qnd ele cita que o acasalamento entre espécies do mesmo sexo ocorre geralmente em cativeiros onde a oferta do sexo oposto é escassa e mesmo assim a refere como comum. São necessárias milhares de páginas para que se possa entender a obviedade da coisa.
Primo, a biografia de Silas é boa, de besta ele n tem nada. Vcs tem pensamentos distintos e atuam na mesma área, a psicologia faz isso?

Felipe C. Novaes disse...

Concordo, a homossexualidade é algo diferente. Mas o que eu quis mostrar aqui é que ela se mostrou etiquetada de diferentes formas pela sociedade. Em várias delas, essa orientação é vista como algo ruim ou "diferente" (sentido pejorativo). Mas em outras, é vista como algo normal e muitas vezes "diferente" mas de uma forma positiva, como em alguns locais e épocas na Índia. Saindo da espécie humana, vemos o ato de fazer sexo com indivíduos do mesmo sexo em muitas outras espécies. Isso não é um fenômeno isolado observado por um único pesquisador. Existe já um grande volume de literaturas falando sobre esses casos. Isso já é um fato. Frente a esses fatos, eu tento mostrar o quão pequena e distorcida é a imagem do Malafaia com relação à sexualidade. Ele tem uma visão estreita porque prefere enxergar à frente dele somente um livro antigo e que mostrava como as pessoas da época em que ele foi escrito lidavam com essa questão. Só que o Malafaia quer empurrar essa visão antiga à sociedade de agora. Isso pra mim é algo que, pelo menos com relação à homossexualidade, não tem fundamento. São épocas e contextos sociais diferentes. Não estou desquelificando o Malafaia aqui omo uma totalidade. Ele pode ser uma ótima pessoa, mas essa opinião dele, pra mim, não faz sentido e eu discordo, apresentando os fatos que me fazem discordar.

Bom, quanto ao que ele pensa e que pode ser atribuído à psicologia, eu não sei. hehe Mas eu aposto com vc que os achismos dele sobre a homossexualidade não tem nada à ver com a psicologia! haha Tem a ver é com a religião dele. E sim...infelizmente, a psicologia é um campo tão plural que existem muitas áreas com objetos de estudos diferentes, abordagens diferentes...Enfim...aí é assunto de outro post. Dá uma olhada aqui oh: http://nerdworkingbr.blogspot.com/2010/10/o-que-diabos-e-psicologia-psicologia.html

Alcir Filho disse...

Felipe,

Que a prática homossexual existe desde a antiguidade, não há dúvida. A Bíblia nunca negou o fato. E sempre se posicionou a respeito: ela é contra a prática homossexual, e fim. Por se tratar de um livro religioso, caba a cada um acreditar ou não. Isso é foro íntimo. Mas o que eu penso a respeito não alterará o fato de a bíblia o taxar como pecado.

Logo, é uma questão de coerência doutrinária a posição do Pr. Silas. E a liberdade de credo é constitucional, a carta magna nos permite acreditarmos no que bem quisermos, e professar esta fé publicamente.

Mas o problema é que os grupos GLBTT, e aqueles que simpatizam com este movimento não aceitem opiniões contrárias as deles.

Por exemplo, você pode criticar a cosmovisão protestante, mas eu não posso criticar o homosexualismo? ISSO sim, é ser retrógrado. E é contra a base de toda estruturação do Estado Democrático de Direito, a livre expressão e livre debate de assuntos pertinentes a sociedade.

No mais, as pesquisas científicas sobre o assunto não são conclusivas. Não existe dados reais, apenas conjecturas. Ou seja, o achismo pseudo-científico de boteco.

Até.

Felipe C. Novaes disse...

"Por se tratar de um livro religioso, caba a cada um acreditar ou não. Isso é foro íntimo. Mas o que eu penso a respeito não alterará o fato de a bíblia o taxar como pecado."

Concordo.

"Mas o problema é que os grupos GLBTT, e aqueles que simpatizam com este movimento não aceitem opiniões contrárias as deles."

De fato, vc tem certa razão no que fala. Hoje em dia as minorias se tornaram tão sensíveis que qualquer frase dita sobre elas que não possuam as palavras "normal", "a favor" e etc, no meio, já é tida como manifestação contra, homofobia...Por outro lado é compreensível pois é uma situação em que não só posições ideológicas e evidências estão em jogo, mas sentimentos também. E isso faz qualquer discurso fugir para o lado pessoal e se transformar em briga. Vivemos em uma sociedade livre, um Estado democrático e por isso deveríamos ter o direito de manifestarmos nossas opiniões livremente. É um argumento a ser visto com cuidado porque até mesmo num ambiente livre precisamos de certas regras para reger essa liberdade, por mais paradoxal que seja a idéia. Se homossexuais ofenderem héteros, ou religiosos que são contra a homoafetividade; ou homofóbicos, religiosos ou qualquer outr grupo, exercer sua liberade de expressão de maneira agressiva, ofendendo e desqualificando o próximo deverá rever sua posição.

Nesse caso é complicado...eu, pessoalmente, acho que os valores da sociedade, o que inclui manifestações como a do Sr. Malafaia, devem ser feitas com um embasamento sólido, com considerável evidência. Nesse sentido, qual evidência a crença religioso possui? Nenhuma. Isso cria um problema pois, imagine que cada sistema de crença venha a exigir ou manifestar seus supostos direitos de manifestar suas opiniões? Como vamos conciliar tantos desejos? Para se obter um controle devemos determinar um embasamento sólido para nos manifestarmos. Nesse sentido, considero despropositada e irrelevante as manifestações religiosas sobre assuntos que não mais são de sua responsabilidade, uma vez que o conhecimento de várias culturas e várias espécies, como citei no post, revelam que a homossexualidade é um assunto bem mais encaixado no escopo das ciências do que da religião.

Felipe C. Novaes disse...

Bom, eu não diria que é achismo pseudocientífico de boteco. Chamar o atual estágio das pesquisas de boteco é dizer, ao mesmo tempo, que toda e qualquer pesquisa passar por um estágio como esse, pois as pesquisas, no geral, tem seu início assim...conjecturas, hipóteses e por aí vai. Isso é perfeitamente comum e normal.

Realmente ainda não se tem uma teoria 100% testada e comprovada que explique o fenômeno da homossexualidade. Mas frente a algumas evidências, acho que se torna mero detalhe, até certo ponto, ter um corpo mais completo de comprovações. O que dizer das relações sexuais existentes em todas as culturas? O que dizer das relações desse tipo, presentes em outras espécies? Essas observações nos levam a algumas conclusões: primeiro que a homossexualidade não pode mais ser vista como fenômeno meramente cultural; segundo que a homossexualidade não pode ser vista como uma criação propriamente humana na medida em que ela existe em outras espécies. Essa última conclusão é desconfortável em especial para os religiosos que não admitiriam que tal comportamento reprovável fosse algo natural, isto é, pertencente à própria natureza mesmo porque contrariaria os desígnios de seu Deus criador.

Alcir Filho disse...

Felipe,

Não fique chateado com algumas expressões que uso - são só formas de ilustrar pensamentos que de outra forma demoraria muito para expressar.

Concordo que existe uma linha tênue. A questão não é protegre um determinado grupo, mas proteger todo cidadão, independente do grupo a que ele está inserido. Eu não quero ter direitos especiais por ser hetero, mas não quero que o meu dierito seja transferido para outro, por este não ter a mesma orientação sexual que a minha. Na realidade, estou a ponto de levantar a bandeira hétero, e acusar alguns de heterofobia... rsrsrs.

Outra coisa: o fato de haver gays em várias culturas e na natureza não contraria as Escrituras - antes a confirmam.

RM 8:20-22 "Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou,na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora."

O texto acima mostra que toda a natureza foi rebaixada e aviltada pelo pecado do homem.

Em RM 1: 26,27 "Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza.
E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro."

o Ap. Paulo não está falando de uma cultura isolada. Está falando da Humanidade. Pecado não é novidade dos tempos atuais. Sem contar com inúmeros outros exemplos bíblicos.

Até,

Felipe C. Novaes disse...

A passagem RM 8:20-22 também se aplicaria ao caso das outras espécies?? Bom, se eu tivesse que responder a essa pergunta eu diria que a Bíblia é um livro que posui manuscritos que tendem a falar para um determinado povo, mandar mensagens de esperança e etc, então ela não teria motivos, aparentemente, para incluir aí os outros animais. Também poderia dizer que, caso a resposta seja afirmativa, que não vejo saber diretamente a resposta para essa pergunta.

"O texto acima mostra que toda a natureza foi rebaixada e aviltada pelo pecado do homem."

Bom, eu sempre achei que o pecado só pdesse ser cometido por aquele que tem a capacidade de escolha comparável a dos humanos. A maioria dos animais não chega nem perto disso, então como eles podem pecar já que são quase que totalmente regidos por uma programação genética moldada através de anos pela seleção natural?

Em RM 1: 26,27 o autor pressupõe que existiu uma época em que as mulheres eram perfeitamente castas, obedientes e desprovidas de sexualidade. Acho que essa utopia bíblica, como o nome que eu criei agora (haha) diz, só existe na mente de quem escreveu esses textos e na de quem acredita neles.

"Pecado não é novidade dos tempos atuais. Sem contar com inúmeros outros exemplos bíblicos."

O comentário acima se faz pertinente novamente rs.

Realmente Paulo tem uma abordagem um pouco mais humanitária e não judaica propriamente dita...

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