domingo, 5 de dezembro de 2010

A Ancestralidade do Batismo

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Inspiração para os futuros anjos cristãos?
Existe um curioso aspecto da história das religiões e dos mitos que raramente é conhecido pelos devotos. Sabe-se muito bem que diversos fatores interferem na propagação de uma doutrina religiosa ou mito (de agora em diante escreverei somente “mito”, mas o leitor sabe já que se trata de mito e religião), dentre eles está o comércio, as guerras e a unidade de aspectos do pensamento humano que nos fazem ter questionamentos e respostas semelhantes independentemente da cultura em que estamos inseridos (Jung chamou isso de Arquétipos). Tal fenômeno aconteceu durante toda a história humana, afetando todas as tradições mitológicas; e como tal, a religião judaico-cristã não poderia ficar de fora. 

Existem diversos aspectos da religião cristão, que claramente foram “herdados” de outras tradições. Como exemplo, poderia citar a forma como anjos são retratados, o modo como a dualidade Bem e Mal é encarada, a própria comemoração do Natal em 25 de dezembro, bem como muitos aspectos da mitologia que envolve a vida de Cristo (não quis dizer que Jesus não existiu). Como este é um assunto amplo, planejo investir em vários posts sobre esses aspectos curiosos. Agora, descreverei melhor o tradicional e popular ritual do Batismo, presente tanto na forma católica quanto na Protestante do Cristianismo

Todos conhecem, pelo menos por alto, a passagem bíblica que fala de João Batista como aquele que batiza na beira de um rio e etc. Ainda hoje existe certa controvérsia acadêmica que envolve a veracidade da existência de João. Um historiador judeu quase contemporâneo de João (37-95 d.C.), Josefo, fala um pouco de João:
“ele era um bom homem e ordenava que os judeus exercessem a virtude por meio da retidão de um ao outro, e devoção a Deus, e que, fazendo isso, chegar-se-ia ao batismo; porque  o batismo só seria aceitável por Deus se praticado, não para expiar pecados, mas para purificar o corpo, depois de o espírito ter sido totalmente purificado pela retidão.”.
Josejo também fala sobre a possível preocupação do governo romano porque, como João era muito carismático e muitos judeus pareciam seguir tudo que ele falava, Herodes achava possível que se João incitasse uma revolta, todos os judeus adeririam a ela sem pestanejar. Portanto, se tratava de um possível risco político. O evangelho de Marcos nos diz que João pregava também em regiões desérticas, onde existia uma comunidade judaica, os essênios, que eram caracterizados principalmente por sua forte convicção messiânica. Para esses judeus, a chegada do Messias se daria em pouquíssimo tempo, bem como o Fim dos Tempos. Vale destacar aqui que o Messias que esse grupo esperava (não só esse grupo, mas todos os judeus) era de um tipo bem diferente de Jesus. Seria um homem que libertasse o povo judeu do domínio estrangeiro, que fosse forte, valente; ou seja, um verdadeiro guerreiro. João Batista também parecia estar impregnado por essa convicção messiânica, provavelmente por influência dos essênios, que ficavam próximos aos seus locais de pregação. 

Maomé, Jesus e Buda lado a lado em pintura
Muitos dos conceitos judaicos foram moldados tendo como base outros mitos daquela região, que correspondia ao que hoje é o Iraque. Isso inclui uma forte influência da tradição suméria, que possui paralelos impressionantes com os mitos judaicos. Podemos fazer tal paralelo com o ritual do Batismo, muito mais antigo do que pensamos que seja. O rito é proveniente da cidade suméria de Eridu, “do deus das águas Ea, ‘Deus da Casa das Águas’, cujo símbolo é o décimo signo do zodíaco, Capricórnio (animal composto com partes dianteiras de cabra e corpo de peixe), que é o signo no qual o sol entra no solstício de inverno para renascer. No período helênico , Ea era chamada Oannes que em grego é Ioannes, em latim Johannes, em hebraico Yohanan, em inglês John”* e em português João. Vários autores, sem levar em conta a prova do relato de Josefo, sugerem que João e Jesus nunca existiram, mas se tratava somente de uma história de um deus-água e um deus-sol. 

Buda sofrendo as tentações, como Jesus.
No Budismo também encontramos paralelos. Buda, depois de debater os conceitos hindus com vários sábios e monges errantes, chega ao rio Nairanjana e se depara com 5 mendicantes em jejum. Depois de ter estado com eles, Buda se banhou no tal rio e partiu sozinho para a Árvore da Iluminação. Como deve ser lembrado por todos, segundo os evangelhos, Jesus também, meio milênio depois de Buda, inquiriu também os sábios de sua região e teve sua jornada solitária de iluminação após a visita ao rio Jordão e ser banhado nele. 

Símbolo do deus sumério Ea e também signo do zodíaco



O que tudo isso significa? Os estudiosos consideram que Jesus e Buda, assim como alguns outros personagens centrais de religiões, foram personalidades históricas. Mas isso não significa que tudo o que é falado sobre eles em seus textos sagrados corresponde ao que realmente aconteceu. Tomar como fatos históricos o que é relatados em tais obras é um erro que acaba por corromper toda a intenção do mito; e parece que a tríade de religiões monoteístas da atualidade são os mestres nessa área. Estamos diante de um evento mitológico que provavelmente foi passado adiante, com pertinentes modificações, para regiões vizinhas de forma que não sabemos exatamente onde a coisa começou. Assim, temos seres que podem sim terem sido pessoas reais mas que ao longo do tempo seus feitos e vida foram passados a diante de forma que a esfera mitológica que rodeava os locais terminou por se fundir à história real. Hoje é muito difícil distinguir tudo o que é mito e o que não é. Mas, de outro ângulo, o que realmente importa é a mensagem que esses mitos querem passar. Longe de serem relatos com o objetivo de documentar a História, seus objetivos centrais são consolar e oferecer um caminho para as pessoas. (O que não torna irrelevante a discussão histórica sobre a religião)

*Retirado de As Máscaras de Deus – Mitologia Ocidental


2 comentários:

Anônimo disse...

Texto muito interesse! Gosto muito destas leituras que nos possibilitam ver o universo do pensamento de forma critériosa. No entanto, a própria hermeneutica atual nos conduz para um caminho de abertura de interpretações históricas e de uma maiot relavância em relação ao contéudos das tradicões das linha de conhecimento humano. Alguns pensadores modernos, como Gadamer e Heiddger, que trataram da consciência histórica, comprovam uma impossibilidade no esgotamento dos conheciementos históricos, pois acabamos por minar a própria história.
Percebo que a utilização de analaloga ou semelhante do termo mito e religião torna-se inadequadada, por que nem todos mitos tem haver com uma divindade e nem a religão por si pode ser considerada mítica. Me parece que utilizando este argumento acaba por toma para si uma argumentos de um pensandor, protestante do seculo XVIII, Buttmann, que em sua teologia quis provar que Jesus fora apenas um mito criado pelos apostolos, logo a religião cristã deveria se apegar somente a pensagem de uma confança em Deus. Seu pensamento é responsavel, atualmente, pela proliferação do culto pentencostal em todo mundo.
Achei muito proveitosa a analise sobre o ritual do Batismo, mas não podemos nos fixar somente no ato em si, pois o batismo é um banho (relalidade presente quase em todas as cultura). Acho que seria interessante estudarmos a evolução do entendimento ou considreação do que é o batismo. Este já era um rito previsto no judaismo, está prescrito no livro do Levitico, contudo, houve uma mudança de paradigma na vivencia cristã. Como também em outras analises religiosas existe banhos, como no espiritismo, no entanto, se tem um outro sentido.
No mais, legal sua iniciativa!!!!
Parabéns!!!!!!

Felipe disse...

Anônimo (hehe), concordo com o que vc disse sobre o uso inadequado de religião e mito como sendo a mesma coisa. Vc está certo em todas as ressalvas qu fez sobre isso. Mas aqui nesse texto eu resolvi usar os dois termos como equivalentes porque acho que o que eu quis descrever, esse processo de transformação no pensamento humano e em suas histórias, ocorrem tanto no saber mitológico quanto no religioso. Nesse sentido que eu quis aproximar as duas esferas.

Sim sim....o ritual do Batismo é algo que deve ser entenido em toda a sua complexidade dentro da tradição cristão. Mas é que explorar minuciosamente os significados do rito não foi bem minha intenção aqui....minha intenção era mostrar que muitos dos ritos que conhecemos hoje tem um passado bem mais antigo e que sequer pertence ao Judaísmo ou Cristianismo originalmente. Mas tudo isso, sem querer dizer que nessas duas religiões monoteístas o ritual é vazio e desprovido de sentido. Pelo contrário...os ritos são sempre providos de uma complexa simbologia.

Enfim....entendi o que vc quis dizer...
Valeu!

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