sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Marcelo Gleiser fala sobre o lugar da religião



Recentemente, o astrônomo e escritor Marcelo Gleiser foi entrevistado pela jornalista Marília Gabriela. Achei  excelente, apesar de, como toda entrevista desse tipo, ter sido um tanto superficial. Mas foi interessante porque foram abordados muitos temas considerados complexos, mas de forma fácil, como o Bóson de Higgs. Também falaram sobre assuntos polêmicos como esoterismo e o lugar da religião num mundo onde as explicações científicas são mais valorizadas. 


Minha intenção aqui não é ser muito demorado, porque o ideal seria que você, leitor, assistisse ao vídeo. Queria mesmo era tocar num ponto que me chamou a atenção, lá pelos 25 minutos de entrevista, em que o astrônomo fala algo muito pertinente sobre a religião, e que é algo que eu já havia pensando há muito tempo. 


O conflito entre religião e ciência talvez não tenha muita razão de ser, afinal, são duas esferas de análise do mundo, mas que não necessariamente devem se chocar. Por exemplo – utilizando do próprio exemplo do Gleiser – se olharmos um copo d’água, podemos analisá-lo de vários modos. Se quisermos saber a composição química dele, como ele é daquela forma, vamos ter que apelar para um conhecimento básico de química e física. 


Entretanto, se quisermos explorar o design do copo em si, teremos que ter a ajuda de um profissional da área de design. E por aí vai. A religião e a poesia, por exemplo, lidam com outra esfera, que não está ligada à estrutura racional de mundo nem a experimentos científicos. Elas trabalham com o significado. É a famosa distinção entre o “como” e o “porquê”. 


A ciência trabalha explicando como as coisas surgiram, como as coisas funcionam. Por exemplo, como é que o cérebro humano funciona? Daí vem todo conjunto de explicações neurocientíficas sobre sinapases, neurônios e etc, até chegarmos na causa última, que é a explicação evolutiva sobre como aquele mecanismo ter se constituiu como tal. No entanto, quando vc pergunta “por que?”, aí a coisa complica. 


O “por que” pressupõe que haja um significado, e isso não pode ser experimentado pela ciência, não pode ser analisado através de seu método. E falar dessa questão não tem a ver com ser contra ou a favor da ciência.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A falsa dicotomia Natureza X Cultura



Existe um problema na área de humanas que sempre está presente, de forma implícita ou explícita: a briga entre biologia e cultura. Desde os tempos dos filósofos discutia-se sobre se as características que nos faz humanos seriam herdadas ou criadas a partir da interação com o meio social (tábula rasa). 


Hoje, o dilema tomou novos moldes por causa do aumento de conhecimento na área da biologia (neurociência, genética, psicologia, psicobiologia e etc), portanto, para os defensores da tábula rasa, tudo aquilo que faz referência à biologia é motivo de desconfiança. 


Para muitos essa é uma questão ainda pulsante no ambiente acadêmico (e político), mas existe uma gama de autores que acredita que trata-se de uma questão frívola. A verdadeira empreitada hoje é saber como os fatores ambientais e biológicos interagem entre si para formar tudo aquilo que somos no fim das contas.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O choque mental de 1984



A leitura do livro 1984 foi impactante em muitos sentidos. O livro foi escrito em 1948, mas parece descrever um futuro muito próximo do que nós vivemos, pelo menos em relação a certos aspectos. Ele nos faz refletir sobre o mundo em que vivemos (passado e presente) e no qual viveremos, bem como o que desejamos para esse futuro e quais as consequências imprevistas disso. Mas ele também reserva uma boa dose de reflexão a cerca de nós mesmos. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Aprendendo a pensar cientificamente na escola. Só que não.



Que eu lembre, foi a partir do Ensino Médio que eu comecei a desenvolver um raciocínio científico um tanto apurado, se for comparar com a maioria das pessoas da minha idade. Não que antes eu já não me interessasse pelo assunto, mas penso que foi nessa época que eu me senti mais confiante para analisar coisas que eventualmente lia ou ouvi por aí, inclusive dos próprios professores. 

E nessas reflexões, algo que sempre ficou claro – e que foi ficando mais ainda com o tempo – é que existem duas formas de abordar ciência em sala de aula: a primeira, diz respeito ao ensino das descobertas da mesma através das disciplinas. A outra versa sobre o uso prático da estrutura de pensamento científico em sala de aula. O que isso quer dizer? 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Ensinar ou não ensinar a variação linguística?



Erros de português sempre incomodam, não adianta negar (como a irritante mania mais novade falar “reprovei” ao invés de “fui reprovado”). Claro, uns incomodam mais que outros, mas o que não consigo entender mesmo é o motivo pelo qual algumas pessoas defendem o “direito” de se errar a língua que falamos. Acredito que o objetivo oficial da chamada “variação linguística” não seja esse, mas sim fazer os alunos vêem que o que hoje é chamado de português formal ou norma culta da língua é algo convencionado ao longo da história de determinado grupo social. 

Além disso, é  difícil falar numa norma culta no sentido de algo estático a ser seguido porque ela está sempre variando, a língua é viva. No entanto, eu ainda me pergunto: será que ensinar isso para crianças e adolescentes no colégio é produtivo? 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O problema das feministas com a psicologia evolucionista


Qualquer pessoa que já leu sobre psicologia evolucionista (PE) pode reparar que ela possui inimigos declarados. Em geral, eles estão espalhados pelas ciências humanas [leia um texto que escrevi descrevendoespecificamente o radicalismo da psicanálise]. Arrisco dizer que isso deve-se ao fato de que nessa área, os estudiosos não raramente tem um profundo apego por escritos antigos, que deixam de levar em conta muito do conhecimento produzido até então, bem como um explícito senso de antropocentrismo.

Em uma discussão num fórum pela internet, uma vez, conversei com uma pessoa que se dizia socióloga ou filósofa, não lembro bem. Falávamos sobre darwinismo e ele discordava veementemente da teoria. Ninguém é obrigado a gostar do assunto, mas discordar no mínimo é algo que tem que ser feito com propriedade. Mas não foi o caso, pois o cara simplesmente começou a apelar para argumentos de Platão e Aristóteles, que falavam de essência da espécie. Nessa visão, uma espécie não poderia virar outra ou ser modificada de nenhuma forma pois ela tinha uma essência; como gato, um gato tem essência de gato, então, sua espécie não vir a se tornar outra futuramente, por exemplo.