sábado, 11 de setembro de 2010

A Redenção do Maior Vilão de Todos os Tempos? (PARTE 3)

+A +/- -A

Religiosas ou não as pessoas hoje consideram um fato a existência, pelo menos enquanto personagem de uma narrativa mitológica, de Lúcifer; um anjo caído que continuaria tentando e trazendo desgraças para o nosso mundo. Isso é um caso ilustrativo do fato de que a crença nos paralisa e nos impede de empreender investigações que possam virar de cabeça para baixo o que acreditamos. Com efeito, posso afirmar isso pois, como mostrarei, tal idéia sobre Lúcifer é uma criação mais recente do que imaginamos.


Você já parou para se perguntar de onde vieram os anjos e o próprio Satã? Bom, provavelmente não. Primeiro, porque hoje em dia a tradição bíblica nos disponibilizou uma resposta automática que cita Satã. Segundo, que, curiosamente, antes dos primeiros teólogos proto-ortodoxos (conheça outras correntes teológicas aqui) não existia essa visão relacionando Satã e um suposto Lúcifer, e a origem desses seres simplesmente não levantava curiosidade. A primeira referência bíblica aparece em Jó, quando Javé invoca seus Filhos e o satã está entre eles. (link do post que cita onde isso é citado) Essas criaturas celestiais apenas surgiram. A Bíblia simplesmente não oferece respostas. Portanto, vamos direto para onde as obteremos.

OS PRIMEIROS TEÓLOGOS PROTO-ORTODOXOS E SATÃ

Justino
O mais antigo padre católico (a Igreja ainda não existia, mas os aspectos fundamentais da corrente teológica que daria origem a ela já começavam a aparecer), Justino Mártir, ao que consta, foi o primeiro a falar de Satã como o causador do pecado de Adão e Eva. Mas ele não se prolonga no assunto pois, essa não parece ser uma questão importante. Mas ele não se prolonga no assunto pois essa não parece ser uma questão importante. Ele apenas identifica Satã como a Serpente. Justino escreve que Satã tentou Adão e Eva por causa de alguma razão pecaminosa não-específica (Diálogo com Trifão). Mas o teólogo nos dá uma resposta quanto ao quando “houve a queda”. A resposta se encontra no Salmo 82, onde Javé ameaça os outros deuses (com as palavras da Bíblia), identificados como Filhosdo Altíssimo, dizendo que, por terem negligenciado as viúvas e os órfãos sob seus cuidados, morrerão como homens “e cairão como um dos Arcontes”. Nesse momento, Lúcifer, que seria um desses filhos do Altíssimo, cai; tendo sua primeira aparição como a Serpente. É interessante notar que Lúcifer caiu pelo descaso com viúvas e órfãos, mas veja, nessa época só existia Adão e Eva. Onde estão essas viúvas e órfãos?! 

Mas isso ainda não é tudo. Justino acredita que ocorrerá uma segunda queda, dessa vez por causa de Cristo. Tal queda, para Justino, está prevista em Isaías 27,1 
Naquele dia o SENHOR castigará com a sua dura espada, grande e forte, o leviatã, serpente veloz, e o leviatã, a serpente tortuosa, e matará o dragão, que está no mar.
Esse é o versículo sobre a Serpente-Dragão citado na parte 2.
Um escritor posterior cita Justino como sendo autor de uma outra explicação para a fufura queda de Satã como Lúcifer, baseada em Isaías 14. “Isaías, em estilo de uma tragédia, revelou toda a dramática encenação preparada pelo Diabo sob a máscara do Assírio.” (PG 6:1592-93), foi o que Justino disse, de acordo com o João.

Olhando a situação sob uma ótica diferente, faz até sentido identificarSatã e a Serpente, afinal, a Serpente age como um ser testador; assim como Satã. Mas por que essa relação não foi estabelecida antes do séc II? Simplesmente porque o Gênesis já nos dá uma resposta sobre isso. Lá, a Serpente é identificada como “o mais sutil dos animais que Javé Eloim criou” (Gn 3,1). Ora, se ela já é identificada como um animal sutil e ardiloso, por que e como ela também poderia ser um anjo sutil e ardiloso? Justino não repara no fato de o texto já dizer que ela é um animal criado.

TERTULIANO DE CARTAGO

Tertuliano
Tertuliano fala um pouco mais sobre o assunto. Segundo ele, o diabo foi colocado numa montanha paradisíaca identificada como alegoria para Céu. E Deus criou os animais, o que seria uma elgoria para a criação dos anjos. Assim fica fácil perceber onde Tertuliano de Cartago quer chegar. Provavelmente, tal interpretação foi feita a fim de embasar Justino, que diz que a Serpente é o Diabo. Assim, a própria Serpente seria uma alegoria para o Diabo. Esse conteúdo é encontrado em Tratado contra Marcião. Tertuliano também não se prolonga falando as motivações de satã, mas sagazmente introduz uma fala e a atribui a satã. O leitor mais atento e informado logo reparará que a citação foi copiada de Isaías 14, 13-14. “Estabelecerei meu trono acima das estrelas [...] ascenderei mais alto que as nuvens, serei como o Altíssimo”(Contra Marcião 5, 17). Em Isaías, tal versículo era uma citação da fala do Rei da Babilônia, não de Satã.

SÃO CIPRIANO, BISPO DE CARTAGO

A passagem que acabamos de ver acima foi também usada por Cipriano, mas ele diria que tais palavras foram ditas pelo Espírito do Anticristo no futuro. 

São Cirpriano - imagem representando seu passado como pagão
No escrito Ciúme, Cipriano expressa claramente sua opinião: no início do mundo, o Diabo pereceu causando a morte de outros. “Ele havia sido mantido em magestade angelical, íntimo e amado de Deus. Porém, quando viu o homem, criado à imagem de Deus, ele explodiu em ciúme [...] ele pereceu antes de causar a perdição: ele retirou do homem a graça da imortalidade que ele já havia perdido”.

ORÍGENES DE ALEXANDRIA

A biografia de satã criada por Orígenes, séc. III, elaborou um novo pecado original: orgulso e rebelião contra Deus, ao aplicar ao Diabo, a passagem de Isaías 14, que, originalmente, se referia ao Rei da Babilônia. Assim, a nova biografia foi recebida com forte apelo e continua assim até hoje. Assim para Orígenes, satã começa como um rebelde contra Deus, que por despeito causou o pecado em Adão e Eva, e desde então tem guerreado contra a humanidade.

CONCLUSÃO

Ao longo destes 3 posts eu quis mostrar não uma série de opiniões, mas fatos. Por isso fiz questão de rechear os posts com citações. Porém,  muitos vão dizer que eu simplesmente quis virar ao avesso todo um saber, me baseando em passagens isoladas. Não é o caso. Tive como base um livro (já citado) que trata a questão minuciosamente. Aqui não tem como desenvolver a mesma quanidade de idéias.
Orígenes

Vimos que a Bíblia simplesmente não fala em um anjo caído, não fala tão pouco nele como a Serpente do Éden. A maioria dos conceitos sobre Satã foram tirados das obras dos pais da Igreja católica. E curiosamente, os mais insistentes e apegados a essas visões são os Protestantes, que se acham totalmente desligados das questões católicas. Isso nos revela algo profundo. O que está em jogo nesse momento é mais do que só uma crença enraizada demais para ser abalada. Na verdade, se trata da perda de um perfeito bode expiatório para nossas imperfeições, que muitos relutam em assumir ser algo propriamente humano (violência traição, guerra, doenças e etc) e acima de tudo, um inimigo externo se faz necessário para manter o grupo coeso. Vemos essa estratégia em várias esferas das relações humanas, desde a mitologia até a política. Em relação à última, temos como exemplo os EUA, que pintaram um inimigo externo perfeito, o terrorismo, que matém o povo americano unido. Dessa forma, todos os atos sujos que a política americana toma é justificada (e não só explicada) peo fato de estarem se protegendo de teroristas loucos. Da mesma forma que muitas vezes algumas pessoas colocam a culpa no tradicional Satã, para tirarem de si a responsabilidade pelos seus atos.


5 comentários:

Anônimo disse...

Bem legal essa série de posts que vc colocou ae. Esclareceu muitas dúvidas minhas sobre assunto!!

Alcir Filho disse...

Felipe,

Penso que, para um adepto do conhecimento científico, você tem uma "fé religiosa" acerca das afirmações contidas no livro que vc leu e achou massa... Na conclusão até afirmas isso, ao afirmar aque teve por base UM livro todo.

Putz, UM livro todo... Essa talvez é a conceituação de pesquisa científica mais profunda que já tive conhecimento rsrsrsrs.

O pior, é que é uma interpretação tão fora de contexto que nem dá pra pontuar todos os equivocos. Só para esclarecer, chamar a Patrística de ICAR é equivocadíssimo! A ICAR só surge como instituição no império de Constantino.

Cara, busque fontes mais abalizadas sobre seus assuntos de interesse. Busque MAIS DE UMA referencia bibliográfica.

É como quando você for entregar sua monografia para a banca: sem uma base de respeito, nem vale a pena analisar.

Até.

Felipe C. Novaes disse...

O fato de eu ter escrito um texto sobre o livro que eu li nõ necessariamente demonstra alguma forma de crença nele, até porque eu não li nenhuma doutrina metafísica ou religiosa de qualquer natureza pra poder ter algum tipo de crença sobre isso. Sim, eu li o livro, e achei interessante. SÓ! As análises que o Ansgar Kelly faz, citando as passagens da Bíblia pra embasar seus comentários são bem pertinentes. Mas tá certo, eu só li esse livro sobre o assunto e eu mesmo destaquei isso em um dos 3 posts.

Seria imaturidade minha alegar que esses textos que reproduzi possuem o conteúdo suficiente pra apresentar para uma banca de mestrado ou doutorado, mas seria ingenuidade ainda maior alguém ler e achar que foi essa a minha intenção.

Voltando ao assunto da crença...Qual seria a melhor postura para não dar a entender que algo que falo ou escrevo é fruto de crença?
Os religiosos fazem esse tipo de coisa o tempo todo, ou seja, se utilizam de apenas um único livro para deturparem uma série de evidências científicas que demonstram que a natureza do universo é totalmente diferente da que a Bíblia tenta impor (ou melhor, seus admiradores tentam).

Talvez fosse interessante, além de ler só meu blog, ler o livro cujo post me embasei.

Alcir Filho disse...

Felipe,

Algumas palavras vem carregadas de um conceito que, as vezes, não é delas - de modo propriamente dito.

Por exemplo, a palavra crença. Ao longo do tempo, ela foi utilizada apenas como uma extensão de fé religiosa, mas não é somente esse o sentido desta palavra.

Por exemplo, eu posso crê no sentido de confiar, ou no sentido de aceitar um determinado paradigma, conceito ou linha de pensamento.

Se você é evolucionista, você crê no trabalho de Darwin (aceita os pressupostos teóricos). No caso, quando cito que você crê no livro que serviu de base para os seus posts, estou dizendo que você aceitou os pressupostos teóricos apresentados.

Supondo que você acredita nas coisas que escreve, e que elas estarão de acordo com a sua visão de mundo, elas fazem parte do seu sistema de crenças.

Logo, meu amigo, é sim fruto de crença.

Assim como existe também a ideia que a fé religiosa é desprovida de análise, ou pensamento filosófico minimamente organizado. O que é equivocado.

E, por termos um pensamento organizado (também) filosicamente, é que analisamos os discursos. Quando brinco em relação a ter sido UM livro, é por que o mesmo demosntrará uma visão das coisas, que não se coadunam com a hermeneutica bíblica. Nem com a exegese.

E por fim, talvez essa seja a maior vantagem do pensamento religioso: ao contrário do científico, ele não exige provas - exige fé.
O pensamento científico tem obrigação de provar e comprovar suas afirmações, coisa que muitas vezes não o faz. O pensamento religioso não. Ele tarabalha com axiomas. A Bíblia não se importa em tentar provar a existencia de Deus (axioma) mas sim revelar suas características.
Mas,como já disse, isso é como se estabelece o pensamento religioso.

A ciência se ufana de não precisar dele, e encontrar explicações e provas através de observação e testes. Logo, nada mais justo que se peça as provas que ela julga ter.

Até.

Felipe C. Novaes disse...

"Por exemplo, a palavra crença. Ao longo do tempo, ela foi utilizada apenas como uma extensão de fé religiosa, mas não é somente esse o sentido desta palavra."

Sim...Eu me referi à crença em todos os seus sentidos, não só no da fé religiosa.

"Se você é evolucionista, você crê no trabalho de Darwin (aceita os pressupostos teóricos)."

Aí eu discordo porque há uma diferença entre simplemente acreditar em algo, sendo de cunho religioso ou não, e chear a uma determinada conclusão por causa de argumentos embasados em evidências. Nesse sentido, vc pode até dizer que o darwinismo é uma crença, mas é uma crença de natureza totalmente diferente das outras crenças, como a religiosa. Uma não tem nada a ver com a outra apesar de às vezes usarmos a mesma denominação para ambas.

"Assim como existe também a ideia que a fé religiosa é desprovida de análise, ou pensamento filosófico minimamente organizado. O que é equivocado."

Algumas idéias religiosas são sim desprovidas de pensamento filosófico, outras não. Mas o que importa é que a racionalidade não é algo tão confiável a ponto de ficarmos convencidos de que algo existe, algo como Deus ou o mundo pós morte, só porque algumas elucubrações filosóficas tornam isso possível. Idéias filosóficas podem "provar" que isso tudo existe mas também podem provar que não existe.

"E por fim, talvez essa seja a maior vantagem do pensamento religioso: ao contrário do científico, ele não exige provas - exige fé."

Dependendo do contescto pode ser uma vantagem sim. Mas em outros pode não ser. No caso, quando queremos descobrir como as coisas funcionam, o mundo, o corpo humano, a crença não é uma boa ferramenta. As evidências são melhores. Quando se trata de oferecer conforto, acho que explicações baseadas na fé são melhores pois nos permitem aceitar aquilo que queremos aceitar, aquilo que é melhor para nós, aquilo que nos oferece mais alívio.

"A ciência se ufana de não precisar dele, e encontrar explicações e provas através de observação e testes. Logo, nada mais justo que se peça as provas que ela julga ter."

Concordo...rs Sem mais comentários.

Postar um comentário