sábado, 8 de janeiro de 2011

Dossiê Maconha: E a saúde?

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Os posts anteriores mostraram o percurso histórico pelo qual a maconha passou, desde nosso contato mais primitivo com ela na China, até o início de sua proibição ferrenha nos EUA (com a campanha de Anslinger). Vimos como a maior parte das coisas que são propagadas são frutos de uma manipulação que tem mais a ver com a política e a economia do que com questões que envolvem a saúde dos usuários. Mas, afinal, a cannabis faz mal ou não? Será que tudo que se fala por aí é mentira? Ela realmente mata neurônios ou causa depressão? Danifica o sistema imunológico? 

Os estudos sobre os efeitos da maconha no corpo humano começaram em 1894, época em que a Índia ainda se encontrava sob domínio inglês. Os indianos costumavam tomar a erva na forma de chá, o bhang, e os ingleses começaram a querer estudar se os boatos de que o chá levava à demência eram verdadeiros. O relatório final, após dois anos de análise, desaconselhou a proibição, alegando que o bhang  é quase sempre inofensivo, quando usado moderadamente, e em alguns casos se mostrou até benéfico. O álcool foi considerado potencialmente mais danoso. Em 1944, no auge da paranóia antidrogas nos EUA, o prefeito Fiorello La Guardian resolveu encomendar uma pesquisa para conferir se tudo o que se falava sobre a droga “serial killer” era verdade. Concluíram que o uso prolongado não acarretava degeneração física, mental ou moral. Nos anos 60 houve um “boom” de governos encomendando pesquisas desse tipo. E todas chegaram a resultados muito parecidos. A experiência mais reveladora ocorreu na Holanda, em 1976, em que o governo decidiu não prender mais os usuários, desde que comprassem a droga em cafés autorizados. Os resultados foram promissores, já que até hoje o número de usuários permanece constante e o número de compradores e usuários de heroína caiu. A hipótese para isso é que ao desconectar a maconha do tráfico, os usuários passaram a ter mais dificuldade de acesso a outras drogas mais pesadas. 


Nesse momento, você deve estar curioso para saber de alguns resultados diretos dos estudos sobre esse caso. Vou listar alguns sobre os mitos mais populares que envolvem o “cigarrinho”.
Muito se fala sobre a dependência que a erva causa em seus usuários. Inclusive, dizem que ela é porta de entrada para o vício em drogas mais pesadas. Mas os fatos nos dizem que somente algo entre 6% e 12% dos usuários desenvolve dependência. E mesmo assim, para desenvolver o vício é preciso que haja certas condições prévias. O psiquiatra Dartiu Xavier, coordenador do programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Escola paulista de Medicina, afirma que o perfil das pessoas que se interessam pela droga geralmente é o jovem, ansioso e eventualmente depressivo. É muito raro alguém se encaixar nesses 6 ou 12%  sem que seja compatível com o perfil. Podemos até dizer que a maconha causa tanta dependência quanto jogos, sexo ou leitura. Porém, é preciso ressaltar que nos últimos 50 anos foram feitos cruzamentos selecionados, com a intenção de torná-la mais potente. Portanto, é provável que existam plantas mutantes por aí cujo teor de THC seja bem maior do que o normal, logo, facilitando ligeiramente a relação de dependência. Os efeitos da droga são mais perigosos, de fato, em adolescentes, como adverte o psiquiatra Dartiu. Nessa idade, há o risco do desenvolvimento da chamada síndrome amotivacional, caracterizada pela perda de interesse generalizada, causando prejuízos evidentes na escola, e em áreas gerais da vida do usuário. 


O mito que envolve a morte de neurônios talvez seja o mais difundido. Bilhões de dólares já foram gastos em pesquisas para tentar provar se o THC realmente tem esse efeito. Alguns resultados obtidos através da administração de doses cavalares de THC em ratinhos de laboratório, mas nada foi encontrado. O que o resultado revelou, de mais drástico, foi que o uso pode levar a curtos episódios de “enfraquecimento” da memória de curto prazo. Sem o bom funcionamento dessa memória, a de longo prazo também não trabalha bem, logo temos dificuldade de lembrar das coisas já que não há uma boa fixação de memórias. Mas esse efeito dura somente enquanto a droga está em uso. O efeito passa depois de poucos minutos. 
Quem leu o post anterior, sobre os fatores que resultaram na paranóia atual sobre o assunto, deve estar se perguntando: “Ora, se tantas pesquisas, do início do séc. XX, mostraram que a erva não era tão prejudicial como falavam, por que poucas pessoas sabem disso hoje?”. Simples, a mídia da época estava mais interessada nos lucros que a proibição da droga traria. Isso sem falar que o próprio governo americano, e principalmente ele, estava investindo em programas cujo objetivo era abafar essas pesquisas que levantavam os reais efeitos da droga e jogar boatos na população. Podemos usar isso para repensar nossa própria época. É notório, por exemplo, que o álcool causa muito mais danos do que a cannabis, mas você já viu alguma pesquisa dessas? Já viu alguém falar em proibição de cerveja? Pelo contrário, só o que vemos são as propagandas se multiplicarem como coelhos na nossa TV. Beber muito causa danos irreparáveis ao cérebro e à memória. Além disso, as taxas de dependes de álcool superam em muito as de dependentes de maconha. Mas adivinha o motivo pelo qual você não sabe disso? Porque uma mídia controladora e um governo que visam primeiramente seus lucros existem ainda e pelo jeito ainda vão estar por aqui por um bom tempo. Portanto, estejamos de olhos abertos.

OBS: Não faço apologia a drogas ou a qualquer substância  que seja usada para que as pessoas fujam do mundo real. Minha intenção aqui foi somente expor os argumentos  de maneira a não simplesmente falar que sou contra mas também sem fazer com que o entendimento sobre o assunto seja prejudicado. Não é porque alguém é contra algo, que esse algo deva ser difamado por argumentos claramente forjados. Além do mais, eu penso que se uma droga é tida como proibida, então todas as outras também devem ser, e nesse pacote de proibição, com certeza o álcool entra. Inclusive, isso serve até para aqueles que não pensam duas vezes antes de beber uma “cervejinha” e que criticam as outras drogas. O álcool nos causa danos assim como outras drogas. E que você pode ser tão dependente dessa droga lícita quanto de uma ilícita. Pense nisso.


7 comentários:

DeusILUSÃO disse...

Olá. Copiei e colei o seu código HTML aí do "Link-me" no meu blog, mas só ficou a imagem -- clicando nela não dá o link pra cá. Dá uma olhada lá no meu blog.

DeusILUSÃO disse...

Olá de novo. Sobre o meu comentário acima, eu descobri o que aconteceu. O código que tá no seu "Link-me" tem uma aspa a mais depois de href=.

Por isso não tava dando certo. Eu delete essa aspa e tá funcionando normal agora.

Felipe C. Novaes disse...

Ahh entendi! hehehe Po, valeu, cara!! Abraço!

Pedro Almeida disse...

tb n faço uso nem curto as atuais drogas ilícitas (so tomo minha cerveja, meu preferido mesmo), mas temos q lembrar, q como bons ceticos, temos q requerir embasamento lógico, experimental, empirico nas alegações acerca do q faz bem ou mal. taxar disto ou daquilo n faz o menor sentido per se

Felipe C. Novaes disse...

Com certeza. Mas pesquisas ressaltando os males que o álcool provocar são incontáveis. Seu efeito prejudicial está mais do que solidificado na literatura médica. Claro que para a maioria das pessoas, um copo por semana não faz mal algum. Mas para quem possui propensão à dependência, dar o primeiro gole é um negócio arriscado. Os efeitos conhecidos do álcool, à longo prazo, são os problemas de memória, como o caso mais grave, conhecido por Síndrome de Korsakoff. http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?23

Sobre a maconha, realmente ela faz mal, mas seus efeitos são muito menos prejudiciais que o do álcool.

Dei uma olhada no seu blog. Achei bastante interessante!

Anônimo disse...

Pesquise melhor, quem está acreditando em mitos é você.
Estou fazendo um trabalho de graduação sobre a maconha então vou te dizer o que pesquisei e é verdade:
O Unodc-ONU afirma que apesar de ser vista como droga leve, o uso de maconha tem sérios riscos para a saúde. Segundo seus estudos, entre os efeitos estão ataques de pânico, paranóia e sintomas de psicose.
- A droga pode também precipitar a psicose e agravar os sintomas da esquizofrenia. Houve um estudo de relatos de que o uso de maconha durante a adolescência aumentou a probabilidade de esquizofrenia em mais de seis vezes.
- A maconha é a droga ilícita mais usada por grávidas, e estudos com animais e fetos humanos abortados evidenciam efeitos deletérios cerebrais devido à exposição intra-uterina à maconha que podem determinar alterações na vida adulta, inclusive na predisposição para o consumo da droga. Vários estudos mostram que a maconha pode produzir alterações cognitivas, usuários crônicos apresentam déficits em várias áreas, incluindo aprendizado verbal, memória de curto prazo, atenção e funções executivas. O impacto cognitivo é maior quanto mais precoce e maior a duração do uso.
- Pesquisas concluíram que os compostos da maconha chamados canabinóides representam podem causar aumento da susceptibilidade ao câncer e infecções.
- O uso da maconha pode afetar negativamente o desempenho sexual masculino.

Felipe C. Novaes disse...

Talvez eu tenha esquecido de destacar nesse post ou talvez tenha destaco nos outros da série e vc não tenha lido. Mas os efeitos mais desastrosos da maconha se dão em adolescentes e em crianças, ou no caso das grávidas, como vc citou.

Eu não quis fazer uma defesa da maconha nem tão pouco defender seu uso. Só quis mostrar que a história de sua proibição não tem nada a ver com seus malefícios, que muitas vezes são divulgados como algo exagerado e sem os devidos detalhes, e sim por motivos políticos. Mas isso, obviamente não exclui o fato de que ela faz mal e mesmo que não fizesse eu não faria apologia ao seu uso. Inclusive, sou contra até o álcool. Sou contra qualquer substância que seja usada por pessoas à ponto de fazer com que elas a usem como uma fuga da realidade.

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