domingo, 2 de janeiro de 2011

A Falha Lógica

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Um dos posts mais comentados do blog foi o recente Paradoxo da Onipotência. E esses comentários me alertaram para uma questão que há tempo queria abordar aqui, que é a inexatidão e ineficiência da lógica e da racionalidade em relação a algumas questões. No post citado, a questão que eu expus foi que logicamente é impossível conceber a existência de um ser onipotente na medida em que ser onipotente inclui a possibilidade da criação de uma pedra imóvel até mesmo por seu criador. Isso significa que tal ser não pode ser onipotente. Mas poderia ser dito que um ser onipotente não poderia criar algo dessa natureza, fora de seu controle; mas isso restringiria o seu poder então aí também temos uma anulação da onipotência. Algumas tentativas foram feitas para tentar resolver esse enigma, mas todas tem algo em comum, foram embasadas em raciocínios lógicos, somente.

Batizarei esse ser onipotente de Deus, na medida em que diz-se que, caso exista, Deus é onipotente, então darei nome ao boi logo de uma vez. Um dos argumentos contra esse paradoxo é que podemos acrescentar ao conceito de Deus, a capacidade de aprendizado, o que significa que mesmo que Ele criasse essa pedra impossível de ser erguida, com o tempo aprenderia como movê-la. Mas podemos derrubar também esse pensamento facilmente mudando um pouco a questão: Deus poderia criar uma pedra que nunca poderia mover?
Nos comentários que recebi no post (e até pelo que observo com pessoas com quem converso sobre), ficou claro que a lógica usada pela maioria dos comentários foi que Deus está acima de nossa capacidade lógica e portanto sua existência é sim totalmente concebível apesar do paradoxo. Mas essa é uma variação dos tipos de argumentos que confirmam uma determina premissa tendo por base a algação da ignorância humana. Convenhamos que isso é bastante conveniente. 

No fundo, essas tentativas conseguem conviver umas com as outras apesar de uma lógica não poder sobreviver ao lado da outra. Apenas uma delas pode ser verdadeira, mas ao mesmo tempo, considerando cada uma individualmente, todas parecem ter algo de coerente. Vemos esse tipo de situação também em diversas questões, talvez mais simples que a abordada. Por exemplo, consideremos que o teletransporte é uma realidade e que existe uma máquina que faz isso. O que deve-se entender do processo é que na  verdade o corpo não some de um lugar e aparece em outro; na verdade, ele é destruído e reconstruído em um determinado local. O que essa máquina faz é apenas copiar de alguma forma, as infrmações necessárias para pegar um novo conjunto de partículas e constituir nosso corpo da mesma maneira em outro local. Quando perguntamos para alguém se a pessoa que foi reconstruída é a mesma que foi destruída, as pessoas mais religiosas ou as que acreditam numa essência espiritual ficam com dúvida ou dizem que não se trata da mesma pessoa. Mas o interessante é que esse processo de destruição e reconstrução acontece conosco várias vezes durante a vida por causa dos processos de reparo e reprodução de células, de forma que possivelmente o corpo que tínhamos há uns anos atrás já não é o mesmo de agora. Mas ninguém diz que não somos a mesma pessoa ou que perdemos nossa essência.

Outro bom exemplo é o Paradoxo de Zenão: Um dia, Aquiles resolver partiicpar de mais uma corrida, afinal, ele sempre ganhava mesmo. Mas dessa vez um adversário inesperado apareceu: um tartaruga. Ela apostou que ganharia do semi-deus mas que só exigiria uma coisa: que começasse a corrida primeiro. Sendo assim ele aceitou, afinal era só uma tartaruga. E foi dada a largada. A Tartaruga começou alguns passos à frente, mas quando Aquiles a alcançou, ela já estava alguns passos à frente novamente...daí ele a alcançou e lá estava a tartaruga na frente novamente....a por aí foi. É óbvio que na vida real essa situação não se reproduziria, mas esse paradoxo é tão logicamente perfeito que se usássemos números para medir essas distâncias, ele continuaria consistente, apesar de não se parecer nem um pouco com o que acontece na realidade.

O que todos esses exemplos tem em comum é exatamente o fato de serem todos concebíveis racionalmente, e serem igualmente improváveis e não-verificáveis. Perante essa situação, só o que me resta é fazer uma defesa do método empírico aliado à razão, como defendia Kant (leia A Crítica da Razão Pura), ou seja, da ciência. A razão é um poderoso instrumento mas é limitado e para corrigir suas possíveis e prováveis falhas, a evidência se torna importantíssima. Daí é que surge a maior confiabilidade com relação à resultados obtidos através do método científico, que configura praticamente toda a vida moderna até nossos dias.

OBS: Logicamente que a ciência também possui seus erros e falhas, mas é evidente que suas faltas são menores do que as cometidas pelo método da razão pura.

Saiba mais:

O Porco Filósofo: Experiências de Pensamento para a vida Cotidiana


2 comentários:

Eric Souza disse...

gostei do post. voce ja leu o livro "SuperSentido - porque acreditamos no inacreditavel?" ?. achei uma parte do texto parecida com trechos do livro. muito interessante. o livro é muito bom, recomendo (:

Felipe C. Novaes disse...

Valeu pela dica, Eric!
Dei uma olhada agora no Google e vi que o livro parece ser bem interessante. Mas, como já deve ter percebido, eu ainda não li.

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